Quando descobri o Anglicanismo Brasileiro...

NOTA: Este artigo foi escrito em novembro 2010, decidi publicar de novo, com informação atualizada.

Entender o Anglicanismo no Brasil requer conhecer o próprio povo brasileiro, e o estado da religião no Brasil.

Isto tem sido um difícil e triste processo para mim nos últimos três anos. Com certeza, o primeiro contato que tive com o anglicanismo brasileiro foi em 1998 quando estudava no Trinity College em Bristol.

O que vi causou um grande mal estar no meu espírito e agravou ainda mais a crise espiritual que tive causada pelo estado do Anglicanismo de finais dos anos 90.

Em Trinity, conheci um estudante episcopal brasileiro, hoje presbítero, que era um homossexual ativo. Se isto não foi uma surpresa que me deixou sem graça, ainda foi maior minha surpresa ao descobrir que os estudos dele estavam sendo pagos por uma sociedade missionaria evangélica.

Não poderia imaginar naquele tempo que o meu destino estaria ligado com o Brasil. Nem quando visitei pela primeira vez o Brasil em 2003, como cônego missionário da CEEC. Naquele ano, ajudei a receber duas comunidades na região de Belo Horizonte e, depois, receberíamos algumas comunidades no Recife, Pernambuco.

Em 2003, só existiam três igrejas anglicanas (IEAB, IER e a recém chegada CEEC). Talvez, alguns leitores pensem, também na IEC (Igreja Episcopal Carismática). Porém, a IEC nao é uma igreja anglicana per se. [1]

Infelizmente, tanto a CEEC como o trabalho em Belo Horizonte foram duas grandes desilusões pessoais que tiveram um considerável desgaste espiritual e um grande custo pessoal.

Faz só três anos mudei para Brasil, depois de diversos anos sem visitar o Brasil. Fiquei triste com o que vi sete anos depois. Se houvesse sabido o que ia acontecer em menos de uma década, nunca houvesse visitado o Brasil em 2003.

A IEAB teve uma divisão no Nordeste quando a maioria do clero e igrejas da Diocese de Recife saiu da IEAB. Na atualidade, existem duas dioceses anglicanas de Recife: uma da IEAB e outra sob a autoridade do Primaz a Igreja Anglicana do Cone Sul. A Diocese de Recife, que não pertenece a IEAB, tem sido uma luz no Anglicanismo ortodoxo nos últimos sete anos.

Se deseja entender melhor a gravidade da situação, simplesmente o leitor precisa saber o fato de que quando chegou a AICW [2] ao Brasil, eles sagraram três bispos que um ano depois estariam brigados entre si. Da AICW surgiram quatro igrejas "chamadas" de Anglicanas: a Igreja Episcopal do Evangelho Pleno [3], Igreja Anglicana do Brasil, a Provincia Anglicana do Brasil e, recentemente, a Diocese de Japi - AICW e a Igreja Anglicana Independente. Algumas das quais já tem desaparecido, como também tem acontecido com a Igreja Episcopal Reformada Brasileira.

Contudo, agora, existem um bispo que está viajando pelo Brasil ordenando e fazendo bispos, como eu faço café expresso em casa. Esta situação tem causado verdadeiros constrangimentos para os Anglicanos no Brasil.

Ao mesmo tempo, encontramos projetos fortemente personalistas, como uma igreja que já esteve afiliada a CEEC, a Província de St. Alcuin, a Província Anglicana Cristo o Bom Pastor e, agora, Anglican Church of the Americas.

Porém se desejamos ver casos mais bizarros, só precisamos observar a Igreja Evangélica Elizabetana. Esta é uma igreja verdadeiramente virtual. Pode ser que esteja errado, mas tudo indica que foi criada por um irmão de Curitiba que é conhecido por todas as igrejas chamadas anglicanas no Brasil.

Ou, recentemente, visite um site de uma igreja que tinha um "bispo", o qual nem ordenado ela, e a igreja nem membros tinha. Assim, é fácil fundar novas igrejas.

Se estes fatos não fossem suficientes para considerar a grande crise no Anglicanismo no Brasil, só precisamos ver a confusão destas igrejas, quando tentam definir. Falam usando uma terminologia inventada no Brasil: anglo-tradicionais, anglo-evangélicos, anglo-liberais, anglo-carismaticos, etc.

Porque lá fora não existe anglo-evangélicos, simplesmente são evangélicos. A mesma coisa, acontece com os liberais e carismáticos. Com certeza, existe anglo-católicos os quais são os mesmos anglicanos que os chamados anglo-tradicionais aqui, porque os anglo-católicos são os anglicanos tradicionais.

Infelizmente, sempre tem pessoas que desejam grandes "chapéus" e ainda maiores títulos, se são nobres ainda melhor,  com o único alvo de satisfazer os próprios egos. Porque não se entende igrejas com muitos bispos e poucos membros. Como diz o ditado, "muito cacique e pouco índio."

Em 2010, lia no Orkut o que se escrevia sobre os anglicanos no Brasil, "É fácil. É só criar uma igreja anglicana "continuante" para você. Não precisa local nem membros. Basta criar uma página na internet. Com um pouco de sorte (e de algum dinheiro, é claro), você consegue juntar (mesmo que virtualmente) uns dois ou três "bispos" para transmitir-lhe a "sucessão apostólica legítima" e pronto. Publique seu próprio LOC "de 1662" e vincule-se a uma igreja "séria" nos Estados Unidos ou na Alemanha ou na Inglaterra. É só pesquisar no Google e você acha um monte delas, prontas para fazer um acordo de "intercomunhão", "sério e responsável". Aqui mesmo nesta comunidade há várias dessas igrejas que gostariam imensamente de tê-lo como seu bispo aí na sua cidade. Como você vê, opções é que não faltam."

Este comentário mostra a triste realidade de muitas das igrejas chamadas "anglicanas."

Em meio a tudo isto, existe certa esperança em irmãos que trabalham seriamente a favor do Reino de Deus no Brasil. Tem pastor que serve a Deus e, com grande esforço, planta uma nova igreja. Cristãos que só desejam a glória e honra de Deus.

Agradeço a Deus pelos irmãos da Igreja Anglicana Reformada, e pelo nosso amado Bispo Francisco Buzzo, que tem sido um irmão e líder nesta difícil caminhada de estabelecer um testemunho anglicano bíblico e fiel ao Anglicanismo histórico.

Deus salve nosso amado Brasil.


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[1] Se deseja entender melhor meu comentário, recomendo a leitura do artigo da Wikipedia que é recomendado pela própria Comunhão Internacional da IEC, aqui. No Brasil, a IEC tem suas origens na IEAB. Porém, isto não significa que esta igreja seja uma igreja anglicana.

[2] Anglican Independent Communion Worldwide. Em português, Comunhão Anglicana Independente Mundial.

[3] Esta igreja foi uma igreja neo-pentecostal independente que formou parte da AICW e, logo, saiu novamente com o nome de Igreja EPISCOPAL Evangelho Pleno.

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