A procura da questão moral


Teve o prazer de ministrar como palestrante nas IV Jornadas Acadêmicas de Teologia da FUNVIC em Pindamonhangaba, SP. O tema apresentado era “A Teologia não é irrelevante.” Esta é uma reflexão posterior a palestra no dia de ontem.


Ser jovem é um instante idôneo para refletir sobre a vida que se abre diante de nos. A força do jovem é tal que desenvolve a imaginação da utopia, como força transformadora da sociedade. Esta surge como reação ao status quo existente, e busca recomeçar todo a partir de uma visão romântica que cria a capacidade de imaginar um mundo melhor, um mundo livre.

Esta procura causou cinquenta anos atrás uma revolução social de tal magnitude que os pilares da civilização, que tinha sido criada sobre os princípios judaico-cristãos, começo a ser questionada por outros valores. A libertação moral do século passado era o inicio de uma resposta a modernidade predominante, e a procura por uma questão moral além dos princípios estabelecidos e poucos vividos pelas gerações anteriores.

Tal revolução foi fruto de vários fatores sociais, culturais, econômicos e políticos. Porém, o vácuo causado pelo recuo da moralidade bíblica, tinha permitido criar um vazio nas pessoas que poderia ser facilmente ocupado por outros valores. A força da modernidade tinha entrado na igreja de tal modo que a secularização era uma questão do tempo. A meta-narrativa cristã, como estilo de vida formado pelos ensinos bíblicos, tinha sido ocupado pelo estudo das Escrituras de forma científica, abandonando a relevância da Palavra de Deus como força transformadora da pessoa e da comunidade. Assim, o individualismo tinha sido abraçado pela própria igreja para justificar a crescente diversidade religiosa do Cristianismo.

Diante desta situação, o vácuo foi preenchido com a ética igualitária do novo socialismo. Assim, foi criado uma ilusão do bem moral a partir do sonho social de um estado capaz de cuidar dos seus cidadãos. A liberdade sonhada e pregada era, na verdade, a construção de um projeto alternativo ao evangelho do Reino. Se nos apresentava a utopia progressista, como a resposta dos problemas da humanidade. Isto causou uma euforia tal que tornou-se a ordem do dia a partir do século 20 até os dia de hoje. A reação tardia da Igreja de Cristo, e como toda reação, surge com a desvantagem de responder as questões, em vez de levantar as questões.

Ainda lembrou o primeiro debate que participei com jovens sobre questões pertinentes a cultura e sociedade emergente quase vinte ano atrás, uma das questões levantadas foi a seguinte: qual direito tem os cristãos de impor os padrões morais bíblicos a todo o mundo? Se somos um país livre, as escolhas morais não é uma questão de escolha individual em vez de imposição social? Sem nenhuma dúvida, esta é a premissa do liberalismo social e político. O socialismo, pelo seu lado, deseja impor uma nova moralidade, a partir de uma premissa de que a moralidade bíblica é opressora e a alternativa moral é libertadora. Nem precisou falar quem ganhou o debate aquela noite. Temos perdido o debate, porque temos sido incapazes de viver o mensagem. Na verdade, este debate foi perdido em todo o mundo ocidental. Todo começou com a controvérsia entre fundamentalismo e modernismo, foram os anos onde a igreja recuou para as catacumbas, e se separou da arena pública para o privado.

O produtor dos filmes Mad Max foi perguntado uma vez sobre a direção do mundo dos filmes no futuro. Sua resposta continua sendo interessante para a igreja cristã. Ele descreveu este tempo como "a década da procura pela questão moral.”

Várias décadas depois, observamos que a procura pela questão moral tem encontrado respostas além da narrativa bíblica. Inclusive entre os cristãos mais ortodoxos, a premissa é construída sobre a narrativa progressiva, adotando as estratégias de debate e discussão daqueles que desejam mostrar o erro. Cristianismo assim vira uma ideologia a ser defendida, uma filosofia a ser debatida, um pensamento a ser abandeirado. Porém, como pouca relevância, ou nenhuma, a vida social, cultural e política das nações.

Se isto é assim, não devemos nos surpreender que o debate tenha sido perdido faz já tempo. A procura da questão moral agora ressurge na igreja, diante da aclamada perda de espaço público e privado evidente nas últimas décadas.

Perceber um dia que a Igreja é irrelevante na comunidade e sociedade na qual está inserida, é um golpe forte demais para acordar do sonho em que se viveu por tanto tempo. Contudo melhor acordar que seguir sonhando sem perceber a realidade das mudanças que tem acontecido nas últimas décadas.

Enquanto permanecemos nas quatro paredes preocupados com nossas questões, seguiremos sem ter relevância. Somente se somos capazes de responder com claridade a seguinte pergunta, estaremos tomando os primeiros passos na direção certa. Qual é o mundo que desejamos construir no século 21? 

Tem uma resposta a esta pergunta. Agora sim, seremos capazes de nos aventurar em sendas nunca anteriormente transitadas. Ou teremos medo de procurar além do presente. Os reformadores escreveram a ideia de que a “igreja reformada sempre estará se reformando.” Porém tenho a sensação de que existe um forte temor de abraçar tal ideia, e se prefere viver com a visão romântica de 500 anos atrás. Inclusive quando nos encontramos diante de um novo mundo.

Evidentemente, os ensinos bíblicos são eternos. O mensagem do evangelho não mudou. O mandato recebido de Deus segue sendo o mesmo. A Igreja continua firme em pé. E, contudo, falamos um linguagem compreensível somente pelos iniciados. Estrangeiro a sociedade em que vivemos. Em nesse contexto que a teologia deve ser a força que nos prepare para descobrir a própria revelação de Deus para o povo escolhido, como a liturgia é a obra criativa da história da nação santa que caminha em direção a Cidade de Deus.A Igreja está chamada a viver sua vocação de Reino de Deus visível por todos.

Assim, os governos podem continuar a legislar sua moralidade igualitária monótona, mesmo que ele esteja morta e aguardando os últimos ritos. No entanto, a igreja voltará a reencontrar a questão moral, não como uma reação, mas como uma ação criadora da cidade de Deus. “O Senhor é justo em todos os seus caminhos e é bondoso em tudo o que faz” (Salmos 145:17).

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