Ser Reformado nem sempre significa Calvinista

ser reformado nem sempre significa ser calvinista

Existe uma constante tentação de definir a teologia que professamos de forma restrita, em vez de forma abrangente. São muitos os Calvinistas que preferem assumir uma posição reducionista da Reforma Protestante, como se era houvesse somente acontecido na Inglaterra do século 17.


Com o ressurgimento da teologia reformada, observamos a continuidade dos conceitos desenvolvidos a partir do passado século. Se considera, assim, ser calvinista é idêntico a ser reformado ou as posições defendidas pela dita teologia reformada. Este fato não é por acaso. Isto tem sido resultado de vários séculos de definições e redefinições do que significa ser calvinista e reformado. Levando a ter um significado limitador, em vez, de amplo do termo reformado, como seria entendido no início da Reforma Protestante.

Este artigo tem como alvo defender a teses de que ser reformado nem sempre é ser calvinista. Com o desejo de esclarecer minha posição, se faz necessário definir os termos para ter uma compreensão dos mesmos.

A palavra Calvinista surge a partir de Calvino, o principal autor associado as preposições apresentada pelo Calvinismo. Neste sentido, o conceito teológico Calvinismo tem um sentido restrito, limitado e estreito teologicamente as teses apresentadas por Calvino. Por este motivo, muita tinta tem sido usada para mostrar o que Calvino realmente acreditava para seguidamente defender que a posição defendida era igual e idêntica ao Reformador Francês. Além disso, se tem o entendimento em certos círculos que ser calvinista significa necessariamente uma aceitação total aos 5 pontos do Calvinismo e, ainda mais, a Confissão de Fé de Westminster (CFW) ou as versões Congregacional (1) ou Batista (2) surgidas a partir da CFW.

O site Theopedia define Calvinismo assim, "Calvinismo é o sistema de teologia associado com o reformado João Calvino que enfatiza o governo de Deus sobre todas as coisas como refletido no seu entendimento da Escritura, Deus, humanidade, salvação, e a igreja. Em geral, Calvinismo geralmente se refere a doutrina dos Cinco Pontos do Calvinismo referente a salvação. Em um sentido amplo, o Calvinismo é associado com a teologia Reformada."

Por outro lado, temos o termo Reformado. Este tem um significado mais amplo e abrangente que o anterior, porque tem uma compreensão irenista em relação as outras igrejas surgidas da Reforma Protestante, aceitando a diversidade teológica deste movimento religioso. Isto se reflete com a diversidade de confissões e declarações de fé escritas durante a Reforma Protestante (3). Tal diversidade, nos ajuda a perceber que nunca deveríamos considerar reformado não sentido estreito em que se usa o termo Calvinista.

Em outras palavras, temos por um lado o Calvinismo com algumas características particulares, as quais nem sempre são compartilhadas por todos os Reformados, entre elas, podemos mencionar as seguintes, ainda não sendo uma lista exaustiva: o governo eclesiástico presbiteriano; a ordem de culto e estilo de adoração da igreja; a compressão sacramental; a posição escatológica amilenista; os dons espirituais; a dupla predestinação; e os 5 Pontos do Calvinismo.

Por outro lado, temos os Reformados. Observamos divergência na forma de governo (congregacional, episcopal e presbiteriano (4)); o entendimento dos sacramentos (Batistas, por exemplo); nem todos aceitavam, ou aceitam, conceitos como a dupla predestinação ou a Expiação Limitada (5); encontramos várias posições escatológicas com maior ou menos aceitação (Amilenismo, Premilenismo histórico e Pósmilenismo); o próprio culto existe uma ampla diversidade e um crescente reconhecimento do Livro de Oração Comum, como o intento mais atinado de produzir uma liturgia reformada (6); a questão de Salmonologia, hinários, música contemporânea, entre outros; e, evidentemente, não podemos esquecer as mais divergentes posições existentes entre os reformadores ao respeito dos dons espirituais.

Uma das questões mais curiosas é a presunção de que a teologia reformada requer afirmar os cinco pontos apresentados na nomenclatura TULIP. Contudo existem muitos reconhecidos reformados que são simplesmente quatro ponto. Por exemplo, Richard Baxter, John Davenant, J.C. Ryle, R. T. Kendall, Dr. Rob Plummer, Daniel Akin, Bruce Ware e, inclusive, existe a ideia que João Calvino teria esta posição, tal é a convicção entre diversos teólogos reformados atuais. Contudo se pesquisamos nas redes sociais, encontraremos entre os teólogos um desejo de mostrar que tal possibilidade não é real, nem verdadeira. (7)

Outra questão que tem causado grandes debates acadêmicos entre Infralapsarianismo versus Supralapsarianismo. Este debate se concentra na questão da ordem dos decretos na eleição. Famosos infralapsarianos são John Owen, Matthew Henry, George Whitefield, Jonathan Edwards, Charles Spurgeon, B. B. Warfield, J. Gresham Machen, Martyn-Lloyd Jones, e J. I. Packer. Por outro lado, famosos supralapsarianos são Teodoro Beza, William Perkins, Samuel Rutherford, Abraham Kuyper, Arthur Pink, Cornelius Van Til, Gordon Clark, e John Gill. Ambas posições coexistem entre os reformados.

Se poderia afirmar, neste sentido, que todos os calvinistas são reformados, contudo nem todos os reformados são calvinistas stricto sensu. E permitiria superar alguns debates e controvérsias que terminam prejudicado o testemunho e expansão do Reino de Deus. Assim, considerou que ser reformado tem certo elemento de irenismo nele, enquanto ser calvinista tem uma posição mais polemista.

A posição polemista causou conflitos desnecessários em questões secundárias, terminando em divisões e conflitos que levaram a guerra por causa da religião. Inglaterra é um caso emblemático deste fato, como o pecado tomou o melhor de uma geração de jovens apaixonados por Deus e levou abraçar ações injustificadas em nome de Deus, contra outros irmãos em Cristo. Infelizmente, ainda hoje, muitos autores e teólogos continuam alimentado os preconceitos e promovendo uma narrativa histórica distorcida para mostrar assim a pureza das ideias defendidas.

Se consideramos que todas as questões são essenciais e fundamentais para a salvação (8), não deveria surpreender que nossas obras não deem fruto, porque faltará compaixão, caridade e amor. E, sem eles, nos encontraremos sem a essencial própria da mensagem da Cruz, o amor de Deus pelo Seu Povo.

O Calvinismo se beneficiaria de abraçar o espírito reformado, e superar debates mais fundamentos em conceitos humanos desenvolvido a partir da razão e o racionalismo, e voltar a compreender que existem questões as quais nem sempre são definidas com tanta preeminência, como gostaríamos de pensar.

Nem sei o número de debates que participe nos últimos anos, onde acusavam os batistas de não ser reformados pela questão do batismo e o sistema de governo eclesiástico. Paradoxalmente, o avivamento reformado tem sido causado grandemente por pastores de origem batista reformado (9). Isso sem contar as vezes que me obrigue a defender o Anglicanismo como historicamente reformado e protestante, ainda que hoje nem sempre seja assim (10).

E, verdadeiramente, em um sentido estrito do termo, o Anglicanismo nunca poderá ser considerado calvinista, contudo as igrejas anglicanas formam parte da grande tradição protestante, reformada e evangélica, sendo assim verdadeiramente e plenamente católicos.

O mesmo posso dizer dos irmãos presbiterianos, batistas, congregacionais, e tantos outros que são dificilmente definíveis, que são autenticamente reformados, mas nem sempre estritamente calvinistas.

Que Deus nos ajudei a ter uma visão ampla e abrangente onde possamos receber os irmãos, e não rejeitar por questões sem eterna importância.



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(1) A Declaração de Savoy, 1658.

(2) A Confissão de Fé Batista de Londres, 1689.

(3) Algumas destas confissões se encontram no seguinte artigo da Wikipedia: https://en.wikipedia.org/wiki/Reformed_confessions_of_faith

(4) O governo presbiteriano na Genebra inclusive difere daquele que surgiria na Escócia e, posteriormente, entre as igrejas presbiterianas nos USA e, a partir desse modelo, ao resto do mundo.

(5) Expiação Limitada causou tal número de controvérsias entre os reformadores, que levou o uso de um linguagem ambígua neste ponto foi deixado no esboço final dos Cânones de Dort (1618–1619) com o desejo de permitir que entre aqueles delgados que rejeitavam o conceito de Expiação Limitada assinassem o documento final. Na Assembleia de Westminster (1643–1649), tinha entre os seus delegados aqueles que rejeitavam o conceito de Expiação Limitada. Alguns deles eram conhecidos como Amyraldismo, contudo nem todos poderiam ser considerados parte desta posição teológica. Para maior compreensão deste debate na Assembleia de Westminster, recomendou a leitura do artigo, “Shades of opinion within a Generic Calvinism,” pelo Rev Dr Lee Gastiss. https://leegatiss.files.wordpress.com/2009/10/lee-gatiss-rtr-articles-on-particular-redemption-at-westminster.pdf
Além deles, encontramos entre importantes líderes destacáveis dos Puritanos e dos não-conformistas, como John Bunyan, que escreviam e pregavam em contra a mesma.

(6) Recomendo a leitura dos seguintes artigos que reflete sobre a importância do Livro de Oração Comum, como uma verdadeira liturgia reformada:
• “Why Should Presbyterians Read the Book of Common Prayer?” pelo Rev John Ross | https://johnstuartross.wordpress.com/why-should-presbyterians-read-the-book-of-common-prayer/
• “Thoams who?” por Zac Hicks | http://www.reformedworship.org/blog/thomas-who

(7) R. T. Kendall defende tal posição no seu livro, "Calvin and English Calvinism to 1649" - https://www.amazon.com/Calvin-English-Calvinism-1649-Christian/dp/1597527475
Também seria recomendada a leitura da obra, "Calvin and the Reformed Tradition: On the Work of Christ and the Order of Salvation" por Richard A. Muller. https://www.amazon.com/Calvin-Reformed-Tradition-Christ-Salvation/dp/0801048702/ref=pd_sim_14_3?ie=UTF8&psc=1&refRID=6P2B35YJJSSTKRJYY23V

Outros teólogos que compartem esta posição são P. van Buren, B. Hall, M.C. Bell, J.W. Anderson, C. Daniel, S. Strehle, A.C. Clifford, entre outros. Por outro lado, os teólogos que negam tal posição são P. Helm, R. Nicole, W.R. Godfrey, R.A. Muller, J.H. Rainbow, entre outros.

(8) O Presidente e Fundador de Credo House Ministries, C Michael Patton, escreveu um artigo onde aborda o tema das doutrinas essenciais e as que não são. Tal artigo poderá ajudar ao leitor a considerar esta questão. Acessa aqui: http://www.reclaimingthemind.org/blog/2009/12/essentials-and-non-essentials-how-to-choose-you-battles-carefully-chart-included/

(9) John Piper, John McArthur, Paul Washer, Franklin Ferreira, a turma da Editora Fiel, e tantos outros teólogos.

(10) O fato curioso, como bispo anglicano e reformado, foi ler a resposta dos presbiterianos diante do surgimento do movimento de Oxford (anglo-católicos), em vez de rejeitar como uma falsa expressão do Anglicanismo, convidavam os Anglicanos a sair do Anglicanismo, porque esta não era reformada, nem protestante, apontando os anglo-católicos como exemplo do que era realmente ser anglicano. E, deste modo, os próprios presbiterianos terminaram promovendo o movimento anglo-católico no Anglicanismo.


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