OS LATITUDINÁRIOS


Os Latitudinários eram um grupo de teólogos anglicanos do final do século 17, que advogavam por uma interpretação menos estrita ou dogmática da fé Cristã, a qual permitia continuar sua adesão as formas externas de governo e culto anglicano, mantendo ao mesmo tempo uma certa indiferença sobre sua validez absoluta. Assim, não defendiam o formulário Anglicano, como necessário para a vida da Igreja de Inglaterra. Nesse sentido, a palavra inglesa latitude tem o significado original do latim, que implica uma ampla margem ou espaço.

Eles eram fruto da influência dos Platônicos de Cambridge, ainda que estes não tivessem a profundidade teológica e mística dos Latitudinários. Esse grupo de homens de Cambridge, ainda que não fizessem parte do grupo de Latitudinários, propriamente dito, foi o primeiro grupo a ser assim denominado.

Os Latitudinários eram um movimento de reação aos conflitos que tinham se desenvolvido entre os Laudianos e os Puritanos. Hoje em dia, a Igreja Ampla, é considerada herdeira dos Latitudinários; contudo, historicamente, os Latitudinários foram aqueles que desenvolveram a Igreja Baixa, já que tinham um entendimento crítico em relação à Igreja e seus costumes. Somente no século XIX, os Latitudinários e os racionalistas levariam a formação da Igreja Ampla, enquanto, os evangélicos seriam conhecidos (no tempo do Rev. Charles Simon) como a Igreja Baixa, pela oposição destes aos ritualistas (o movimento de Oxford, hoje conhecido como os anglo-catolicismo).

Os latitudinários reagiram contra o Calvinismo e contra os Puritanos, e eram principalmente Arminianos na sua perspectiva teológica. Por outro lado, resistiam a insistência dos Laudianos sobre a conformidade nas questões não essenciais tais como a ordem da igreja e a liturgia. Sua posição surgia na base de que “A filosofia verdadeira nunca pode ferir a sã divindade,” o que significava na prática que harmonizavam a Bíblia e os Pais da Igreja com a luz da razão. Algumas das características essências dos latitudinários se resumiam em:

1. Oposição a todo o que fora dogmático na doutrina ou costumes;
2. Preferência pela razão sobre a Bíblia ou a Igreja;
3. Apresentavam a religião sobre a base da teologia natural;
4. Busca das formas corretas de viver mais que das de pensar; e
5. Tolerância nas questões religiosas, como instrumento de união entre os cristãos.

Os três primeiros pontos refletem o intento de aplicar na religião o espírito de investigação cientifica de Bacon e seus seguidores. Lord Falkland e os outros latitudinários negavam a autoridade da Tradição em matéria de fé, como Bacon o tinha negado no conhecimento da física e propunha o uso da razão como meio supremo para comprovar a verdade. Os dois últimos pontos refletem de maneira melhor o naturalismo pragmático que estava em linha com as tendências sociais da época na Inglaterra, tal impacto é sentido na Igreja de Inglaterra até os dias de hoje.

Infelizmente, estas premissas dos latitudinários dariam passo ao deísmo, o qual negava a religião revelada e proclamava a liberdade de pensamento, a tolerância universal e um total anti-dogmatismo. Muitos latitudinários virariam também deístas no século 18. Tal fato não foi surpreendente, uma vez mais que sua posição era vaga geologicamente e insubstancial espiritualmente, produzindo uma religião fortemente moralista. Produzindo como resultado o reducionismo teológico do século 18. Vale a pena lembrar que sua ênfase na razão, promoveu indiretamente o ceticismo de Hume.

Entre os líderes mais destacados se encontram:

William Chillingworth, baseando-se no “juízo privado” protestante, opinava que o fundamento da fé não é a tradição eclesiástica, nem sua autoridade, mas a Bíblia interpretada conformes razão e sentido comum dos homens.

Jeremy Taylor limitou ainda mais a autoridade da própria Bíblia, já que considerava que exceptuando algumas das verdades mais simples da religião natural, é impossível estar seguro de não equivocar-se. Chillingworth se opunha tanto ao dogmatismo protestante como a inefabilidade católica e considerava uma vã pretensão tratar de formular melhor as coisas de Deus que com a Palavra de Deus. É aí onde se desejava uma maior amplitude (latitude) de interpretação e tolerância sem restringir seu significado.

John Hales baseou sua lealdade a Igreja de Inglaterra no fato de que, conforme ele era a igreja mais universal e tolerante.

John Tiletson [1630-1694] chegou mesmo a ser arcebispo de Canterbury.

Entre outros membros dos laudianos se encontra Edward Stillingfleet, bispo de Worcester; Gilbert Burnet, Bispo de Salisbury; e Thomas Tenison, arcebispo de Canterbury.

Se alinharam com os movimentos liberais e progressivos intelectuais da época. Fortemente contrários ao escolásticos e ao pensamento de Aristóteles, encontravam mais inspiração da filosofia de Descartes.

A liberdade religiosa que defendiam os latitudinários está fundamentada na debilidade da autoridade e na imperfeição do conhecimento humano, em oposição ao não-conformistas do seu tempo os quais baseavam o conhecimento na defesa da comunhão pessoal de cada alma com Deus e Sua revelação ao homem.

Em 1689, com a expulsão de Tiago II e a coroação de Guillerme de Orange e Maria II, se pensou na possível união entre os não-conformistas e os conformistas, que tinham se aliado politicamente contra os Estuardos e o seu catolicismo. Os latitudinários propunham uma lei ao Parlamento (Comprehension Bill), a qual tinha como objetivo principal resolver as diferenças para obter assim uma única igreja onde pudessem conviver diversas posições Doutrinárias. Esta lei não foi aprovada, em vez disso se aprovou a lei da Tolerância que permitia tão somente a liberdade de culto. Este é o motivo pelo qual os não-conformistas continuam separados da Igreja de Inglaterra até hoje.

Os Latitudinários não existem mais como tal, contudo a chamada "Igreja Ampla" representa alguns dos princípios deste movimento dentro da Igreja de Inglaterra e as igrejas episcopais. Também, os liberais tem posições que nos lembram as posições dos latitudinários, ainda que não sejam o mesmo movimento teológico.

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Um comentário:

  1. Obrigada por este esclarecedor artigo. Estou lendo a biografia de Darwin e, no final, conta que, para seu funeral e enterro, tanto os latitudinarios da Westminster Abbey como os anglo-católicos de St.Paul concordaram em oficiar o ritual na Westminster, onde Darwin foi enterrado.

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