Calvin e Cranmer, uma conversa sobre a unidade da Igreja


Um dos episódios menos conhecidos da Reforma do século 16, foi o desejo do arcebispo Thomas Cranmer de organizar um concilio geral das igrejas protestantes. Este desejo veio da necessidade que Cranmer via de unir as igrejas protestantes que estavam desunidas em uma só igreja protestante com uma mesma confissão e forma.

Infelizmente, isto nunca chegou a acontecer, como a história nos mostra. Contudo, temos a resposta que Joao Calvino escreveu no seu dia ao Arcebispo Cranmer, falando a respeito:
Conheço que seu propósito não é simplesmente limitado à Inglaterra só; mas consideras o benefício de todo o mundo. A disposição generosa e a piedade incomum de sua Majestade, o Rei, são justificadamente a ser admirados, como ele está disposto a favorecer este santo propósito de receber este concílio, e oferecer um lugar para as sessões no seu reino. Desejo poder ser efetivo, que homens estáveis e conhecedores, das igrejas principais, possam reunir-se em algum local, e, depois discutir com cuidado cada artigo da fé, entregando para a posteridade, da opinião geral de cada um deles, as doutrinas claras das Escrituras. Deve ser nomeado entre os males dos nossos dias, que as igrejas estão divididas umas das outras, que não há praticamente nenhuma relação de amizade forte entre nós; ainda menos a santa comunhão dos membros de Cristo floresce, que todos professam com suas bocas, mas poucos sinceramente consideram nos corações. Mas se o professor principal se comporta mais friamente do que deve, é principalmente o erro do príncipe que, envolvido nas suas preocupações seculares, negligencia a prosperidade e pureza da igreja; ou cada um, preocupado com sua própria segurança, é indiferente ao bem estar dos outros. Deste modo, vem acontecer, que os membros estando divididos, o corpo da igreja se encontra incapacitado.

A respeito de minha pessoa, se pode parecer que possa render qualquer serviço, seria com prazer que cruzaria dez mares, se necessário, para cumprir este alvo. Inclusive se o benefício do Reino da Inglaterra só fosse o ser consultado, forneceria uma razão suficientemente poderosa para mim. Mas como na proposta do concílio, o alvo é obter um acordo firme e unido de doutores da regra saudável das Escrituras, pelo qual as igrejas agora divididas possam ser unidas umas com as outras, penso que seria um crime me poupar de qualquer trabalho ou problemas para efetuá-la. Mas espero que a minha pequena capacidade para conseguir isso, vai me fornecer desculpa suficiente. Se ajudo o alvo através das minhas orações, que serão feitas por outros, exercerei a minha parte do trabalho. Melancthon está tão longe de mim, que as nossas letras não podem ser trocadas em um curto espaço de tempo. Bullinger talvez já tenha respondido antes. Eu desejo que minha capacidade seja igual ao ardor dos meus desejos. Mas o que eu no início recuso, como incapaz de realizar, percebo a necessidade urgente do concílio agora obrigar-me a tentar. Não só te exorto, mas imploro, a prosseguir, até que alguma coisa seja feita, se não tudo o que você deseja.

Infelizmente, este concílio de igrejas protestantes nunca chegou a acontecer, mas Thomas Cranmer foi um visionário dos tempos em que viviam e dos tempos que estavam por chegar.

Talvez, chegue um dia em que a Igreja possa conhecer uma maior, e mais real, unidade nos próximos anos, ainda que não existam motivos para ser otimistas.

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