Os anglicanos somos reformados?


Pode ser que muitos neguem o que é óbvio. A Igreja de Inglaterra é uma igreja reformada e protestante. Se existe uma coisa que une os anglo-católicos e evangélicos, se encontra na afirmação de ambos de que os Anglicanos não são reformados. 

Não faz sentido aceitar as falsas premissas de que existe uma teologia Reformada que é diferente a teologia Anglicana.

Na Igreja de Inglaterra conviviam diversas sensibilidades, com certa diversidade. Contudo, a posição doutrinal do Anglicanismo é, e foi, claramente Reformada. A maioria dos “Puritanos” eram Anglicanos. Alguns defendiam um sistema de governo presbiteral, mas se consideravam parte da Igreja de Inglaterra. A lista tem nomes como Perkins, Preston, Calamy, Twisse, Gataker, Vines, Cornelius Burges, entre outros.

Existe uma tentação de enfrentar os “Puritanos” e os “Anglicanos.” A idéia é que os Puritanos eram os Reformados, podiam ser parte da Igreja de Inglaterra, mas eram um projeto “totalmente” diferente. Isto não mostra toda a realidade.

Nomes, como Peter Martyr Vermigli e Martin Bucer, mostram uma presença reformada anglicana no principio. Knox trabalhou pessoalmente no Livro de Oração Comum com o Arcebispo Tomas Cranmer. Sem esquecer nomes, como William Tyndale, Tomas Cranmer, John Frith, Hugh Latimer, Nicholas Ridley, John Hooper, Edmund Grindal, John Whitgift, George Abbot, John Jewel, Richard Hooker, John Davenant, Samuel Ward, Joseph Hall, James Ussher e William Bedell.

Muitos deles bispos e arcebispos, e os dois últimos eram anglicanos irlandeses.

Inclusive, John Overall e Lancelot Andrewes se consideravam melhor, como reformados moderados. Overall pensou que estava promovendo uma “Via Media,” contudo quando Davenant apresenta esta “via media” no Sínodo de Dort, ela é aprovada.

Sem dúvida, existe uma diferença entre o Anglicanismo e o Presbiterianismo atual, mas isto não faz de um mais Reformado que o outro. Talvez, o Anglicanismo tem sofrido o liberalismo e os anglo-católicos, mas os Presbiterianos tem sofrido também o liberalismo, a teologia de libertação e a neo-ortodoxia.

Se observamos a teologia Reformada do século 16 e 17, podemos ter certeza que o Anglicanismo era plenamente Reformado, teologicamente.

Acredito que a Igreja Anglicana é claramente Reformada, Protestante e Evangélica. Por isso, sou Anglicano.

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9 comentários:

  1. Dizemos que nem todo que se diz Cristão é de fato Cristão, ou nem todo que se diz Presbiteriano é realmente um Presbiteriano. Da mesma maneira dentro da Igreja Anglicana também temos os lobos que difamam a denominação, mas em contrapartida temos muitos reformados compromissados com a sã doutrina. Não tenho duvidas que a IAR é composta de gente verdadeiramente Reformada, mas não posso dizer o mesmo talvez da IAEB... Uma coisa que me chamou a atenção no texto e eu gostaria de perguntar é: William Tyndale era Anglicano? Tenho certas duvidas a esse respeito, penso que ele foi morto pelo Clero Inglês antes mesmo de Henrique VIII formar a Igreja Anglicana... Porém corrija-me se eu estiver enganado. Um grande abraço Bispo... Atila

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  2. Caro Atila, se pensamos que William Tyndale era membro da Igreja de Inglaterra, então se pode conseguir que era um anglicano reformado, como Jon Huss era um reformado. De fato, ele não formou uma nova denominação, ele desenvolveu um movimento para reformar a Igreja de Inglaterra. Um forte abraço.

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  3. Além de encontrarmos na época grande parte dos puritanos sendo anglicanos ou presbiterianos, temos os independentes congregacionais, aqueles que forma maioria no exercito de Cromwell, e uma força politica e religiosa grande na Inglaterra. Basta citar John Owen, T. Goodwin, William Perkins, John Robinson, Henry Jacob, Isaac Watts,etc. Desses congregacionais temos a Declaração de Savoy de Fé e Ordem, de 1658. Abraço a todos.

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  4. Caro Bispo, o status reformado da Igreja Anglicana é muito questionado e creio que sua postagem foi oportuna. O que eu acho que muita gente esquece é que, embora nem todos tenham permanecido assim, figuras notórias como John Owen, Richard Baxter e John Wesley eram anglicanos.

    Uma nota que gostaria de fazer é que John Overall não se considerava reformado ou que a Igreja da Inglaterra fosse reformada, mas que era algo melhor, que ficava entre a novidade da Reforma e a antiguidade da ICAR. Mas seu erro é de posicionamento histórico, o qual é corrigido por John Davenant que demonstra que a posição dos anglicanos sobre diversos assuntos é concorde com os demais reformadores.

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  5. Caro Emerson, concordo com você na ideia que John Overall acreditava que a Igreja de Inglaterra era uma "Via Media." Discordo em que não se considerava reformado. Ele tinha uma posição contrario a direção que os Puritanos tomaram no século 17. Muitas das suas posições começaram a mudar quando conheceu o Bispo Lancelot.

    Muitas das suas posições, que alguns consideram arminianas, foram apresentadas no Sínodo de Dort por John Davernant a petição do Rei inglês... e foram aprovados por este sínodo.

    Todos eles formavam parte do Laudianismo, o que se chama popular Alta Igreja, e que defere muito dos anglo-católicos ou do que foi o movimento tractariano (ou de Oxford).

    A ideia de Vida Media, nem é original de Overall, o primeiro em escrever foi Hooker.

    Agora bem, o problema com os (ultra)calvinismo se centrava muito na doutrina de SUPRALAPSARIANISMO, o governo da Igreja e certas práticas litúrgicas. Hoje em dia, estas questões não são consideradas, porque formam parte do passado, com a excepção de certos círculos presbiteranos e ultra-calvinistas.

    Recomendo a leitura do blog de Peter Escalante, se não lembro mau se chama "Reformed Catholicism," onde explica extensamente o que tenho escrito.

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  6. Caro Bispo, minha opinião sobre o Overall se baseia no seu escrito denominado "On The Five Articles disputed in the Low Countries" onde ele diz

    "Os Contra-Remonstrantes, por excluir um geral e condicional decreto, mantem um único, particular e absoluto decreto, referente a certos indivíduos selecionados da raça humana, e por meio da graça eficaz e irresistível do Espírito Santo, a estes apenas, sendo todo o resto rejeitado e condenado por um decreto absoluto. Este é o juízo de Zwingli, Calvino e dos puritanos, desconhecido para todos os antigos Pais, Agostinho e seus seguidores, e rejeitado pela maioria dos romanistas, por todos luteranos, e muitos outros

    A Igreja da Inglaterra, sustenta um caminho intermediário, unindo um decreto absoluto particular (não da presciência da fé humana ou da vontade, mas do propósito da divina vontade e graça) de libertar e salvar aqueles a quem Deus escolheu em Cristo, com uma geral e condicional vontade, ou com uma geral promessa evangélica: o ensinando que as promessas divinas devem ser abraçadas da forma como elas são geralmente colocadas para nós nas Sagradas Escrituras, e que essa vontade de Deus deve ser seguido por nós, a quem tem claramente revelado na palavra.."

    Ele não se considerava um "calvinista", pois pensava que suas idéias estavam em discordância com Calvino. Entretanto seu pensamento sobre não está em discordância com Calvino, mas só daquilo que pensava ser a posição de Calvino, isto é, ele pensava que Calvino não defendesse uma "uma geral e condicional vontade" ou "uma geral promessa evangélica" para salvação de todos os homens.

    Já Davenant defende que a Igreja da Inglaterra está em concordância com Agostinho, Calvino, e os demais reformadores.

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  7. Caro Emerson, eu não falei que John Overall fosse calvinista em nenhum momento, falei que ele é reformado.

    Minha posição requer mais espaço que aqui desejo usar, vou escrever um artigo e publicar. Acho que vou poder esclarecer melhor minha posição.

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  8. "Caro Emerson, eu não falei que John Overall fosse calvinista em nenhum momento, falei que ele é reformado".

    Entendi. Foi muito reducionismo da minha parte. A reforma é mais ampla que Calvino, logo ser reformado deve ser algo mais amplo do que ser calvinista. Agradeço pela atenção e, como sempre, aguardo os novos artigos.

    Um abraço e que Deus o abençoe ricamente!!!

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  9. Odeio esse termo 'via média', o conceito de “via média” está associado a Aristóteles, particularmente sua expressão "in medio virtus". Significaria que "a virtude está no meio", no equilíbrio entre dois extremos. Porém, não devemos nos esquecer que do latim "medio" ou "medium" também deriva a palavra "mediocridade" e o adjetivo "medíocre". A maior ambigüidade presente no conceito de “via-média” é o risco de a teologia anglicana tornar-se simplesmente mediana ou, na pior das hipóteses, medíocre como vem acontecendo, toda vez que ela se aproxima de Roma. Sou Anglicano e calvinista, sem mediocridade!

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