O colarinho clerical

a camisa de padre

Alguns cristãos evangélicos consideram o colarinho clerical como uma camisa usada somente pelos padres católicos. O colarinho clerical tem causado emoções diversas quando o pastor decide usar para identificar-se como um ministro da palavra e os sacramentos. Conheça o que existe por trás do colarinho.


"Pregue a palavra, esteja preparado a tempo e fora de tempo, repreenda, corrija, exorte com toda a paciência e doutrina" - 2 Timóteo 4:2


São muitos os profissionais que usam um uniforme especifico para ser identificados na sua função, como os médicos, policiais, juízes, entre outros. Portanto, não deveria ser uma surpresa que o uso de vestes cristãs tenha sido sempre presente na história da Igreja cristã através dos tempos. Deste modo, os ministros cristãos tem usado diversas vestes para representar o seu ministério entre o povo de Deus e a comunidade onde a igreja está estabelecida.

A camisa clerical, com seu colarinho branco, tem sido possivelmente a mais usadas pelas diversas igrejas cristãs. A camisa clerical historicamente tem sido uma camisa preta, ainda que agora é muito usada azul, com uma aba branca na frente no colarinho (ou colete). Originalmente, aba branca era de algodão ou linho, mas hoje é feito de plástico, normalmente.

Hoje, podemos encontrar um forte preconceito em muitas igrejas e "crentes", principalmente porque associam o uso desta camisa ao Catolicismo Romano. Infelizmente, este fato não é verdadeiro, mas é muito fortemente estendido entre os países de forte presença católica romana como o Brasil. Portanto, encontramos muitas pessoas que, sem saber da origem e do significado, tem uma reação fortemente emocional contrária ao uso do colarinho clerical, muitas vezes sendo inculcado um anti-clericalismo pelos próprios líderes de certas igrejas, como método de evangelismo dos católicos romanos.

Recentemente, temos visto um número crescente de pastores e igrejas que tem começado a entender a importância do uso da camisa no meio da comunidade onde trabalham.

Como surgiu?


O colarinho clerical (dog collar) foi usado pela primeira vez ao redor de 1827. Aparentemente, foi criado pelo Rev. Dr. Donald McLeod, pastor presbiteriano da Igreja de Escócia, conforme informação publicada pela "Church of England's Enquiry Centre" em 1894. O Rev. Dr. McLeod inventou um método simples para poder tirar ou colocar de volta a aba branca da camisa clerical.

Certamente, o uso de versões prévias ao colarinho (dog collar) remontam ao tempo da Reforma e, principalmente, ao século 17. Só precisamos olhar pinturas daquela época para encontrar  ministros presbiterianos, anglicanos e, inclusive, batistas, usando um colarinho na sua batina ou toga.

Foi desenvolvido para ser usado diariamente pelo ministro, porque resultava mais confortável que o uso da batina. O uso da camisa clerical cresceu rapidamente entre os Anglicanos e, por isso, muitos acreditam que foi um invento anglicano, ou que o Rev. Dr. Donald McLeod era Anglicano.

O uso atual do colarinho clerical


Na atualidade, encontramos quase todas as igrejas históricas usando a camisa clerical em maior ou menor grau. Também, encontramos o uso entre Pentecostais, como a Igreja Cristã Nova Vida. Também, é usado por igrejas tão diferentes como as Ortodoxas, Vetero-católicas na Europa, Copta no Egito, Armênia Apostólica, Mar Tomas na Índia, etc.

De fato, os católicos romanos só começaram a usá-la a partir da nova reforma litúrgica que começou na França nos anos posteriores ao Concílio Vaticano II. O uso da camisa clerical era uma substituição idônea ao uso da batina.

Na igreja anglicana é usado por todos os ministros: bispos, presbíteros e diáconos, e também pelos pastores. Na tradição Oriental, existem certas igrejas que permitem o seu uso para os subdiáconos e leitores.

Um símbolo cristão


Quando pensamos no significado simbólico do colarinho clerical, precisamos entender a importância do símbolo na vida cristã. Existem símbolos em todas as tradições e igrejas Cristãs, ainda quando os membros destas não percebam os símbolos como tais.

O “símbolo” é um elemento essencial no processo de comunicação, encontrando-se difundido pelo quotidiano e pelas mais variadas vertentes do saber humano. Embora existam símbolos que são reconhecidos internacionalmente, outros só são compreendidos dentro de um determinado grupo ou contexto (religioso, cultural, etc.).

Neste sentido, os símbolos cristãos tem uma grande importância na sociedade atual, porque são a proclamação visível da verdade invisível. Em outras palavras, quando um ministro cristão veste uma camisa clerical, qualquer que seja o lugar onde ele se encontre... as pessoas são conscientes da sua presença, sendo assim uma proclamação visível da presença de Deus no meio da sociedade.

Ao mesmo tempo, é um símbolo visível de que a sociedade brasileira ainda é uma sociedade cristã, ainda que os políticos e os ateus tentem impor um estado laico através da constituição brasileira.

Ao mesmo tempo, Cristo se faz visível em meio à comunidade através dos seus ministros (servos), como embaixadores do Reino e líderes dispostos a servir a qualquer pessoa que precise de oração e uma palavra de conforto.
"O uso de símbolos é um sinal e um testemunho vivo de Deus no mundo secularizado. Pois uma das características do movimento de secularização o desprezo por sinais e símbolos religiosos. Para as pessoas o fato de ver um ministro com o colarinho clerical já é um testemunho de fé. Assim como vendo um militar lembramos-nos da Lei, e vendo um enfermeiro (a) com seu uniforme branco lembramos o hospital. Igualmente é válido para os pastores que freqüentam lugares públicos usar o colarinho clerical." (Rev. Jaziel Cunha)

Que significa o colarinho?


O colarinho simboliza o jugo de Cristo. Os ministros de Deus estão chamados a ser modelos de vida para a comunidade cristã. Precisam moldar suas vidas seguindo o exemplo de Cristo, conforme Mateus 11.28-30, "Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave, e o meu fardo e leve."

Ao mesmo tempo, o colarinho clerical lembra que o ministro não fala em nome próprio. Mas ele é um ministro de Deus chamado a ensinar a Palavra de Deus e a proclamar o Evangelho de Cristo. A aba branca é uma lembrança de que o ministro precisa predicar só a palavra de Deus pura sem adicionar nada que não seja a fé verdadeira e a sã doutrina.

Uma reflexão final


Acredito que o uso da camisa clerical tem uma grande importância, devido a confusão eclesiástica que existe no nosso meio. Quando existem tantas igrejas, e tanta bagunça, é necessário fazer uma separação do santo do imundo.

A camisa clerical mostra que a igreja anglicana sendo uma igreja evangélica, no seu sentido literal e real, é ao mesmo tempo uma igreja cristã histórica e reformada, e não uma igreja formada recentemente em defesa de alguma doutrina especifica, ou líder particular.

Os ministros anglicanos somos conscientes de que somos pecadores e indignos de ser chamados filhos de Deus. Porém, a graça de Deus tem mudado nossa vida, e já não somos nós que ministramos a palavra de Deus, nem celebramos os sacramentos, mas é Cristo em nós.

Como pecadores redimidos que somos, quando usamos a camisa clerical, ou as vestes cristãs, temos um profundo sentido do que representam e reconhecemos que só servimos a Deus e ao seu povo santo, porque temos sido salvos pelo sangue do Cordeiro e temos sido feitos novas criaturas, sendo revestidos como Josué (Zac. 3).

Finalmente, se algum pastor tem a tentação de usar o colarinho clerical por amor próprio, ou vaidade, espero que pense duas vezes antes de seguir os desejos da carne e a vaidade, porque é um caminho de perdição.

O ministro está chamado a ser exemplo de vida, e a viver com humildade a serviço do povo de Deus.


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15 comentários:

  1. Querido Irmão. Ótimo a vossa apresentação e explicação a respeito do colarinho clerical, mas devemos tomar muito cuidado com nossas colocação, como afirmaste: "Acredito que o uso da camisa clerical tem uma grande importância, devido a confusão eclesiástica que existe no nosso meio. Quando existem tantas igrejas, e tanta bagunça, é necessário fazer uma separação do santo do imundo".
    Não é porque alguns usam que os outros não são santos, também. aliás, santo só tivemos a Jesus Cristo, pois nós estamos buscando a santidade e a encontraremos depois de nossa ressurreição.

    Em Cristo Jesus, um forte abraço

    Pr Robinson Luis de Araujo

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    1. Verdade. Para mau uso, melhor não usar. Na Europa, tanto quanto sei, é exclusivo do catolicismo romano.

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    2. Caro Pr Robinson,

      entendo sua preocupação, e o artigo não tem a preocupação na santidade, como parece ser sua preocupação meu irmão quando escreve, "Não é porque alguns usam que os outros não são santos, também. aliás, santo só tivemos a Jesus Cristo, pois nós estamos buscando a santidade e a encontraremos depois de nossa ressurreição." Concordo plenamente com sua afirmação, somente não entendo esta frase no contexto do artigo.

      Aqueles que usamos coralino clerical percebemos rapidamente que existe uma mudança profunda de comportamento, porque as pessoas te observam. Coisas que podem ser feitas no anonimato, deixam de ser anônimas, porque as pessoas te observam. Por exemplo, você vai a um restaurante depois do culto, como você trata a sua família, ou fala com seu filho... ou como trata as pessoas que você encontra. Este talvez seja um exemplo simples, contudo começa a enxergar uma nova realidade.

      O colarinho clerical é um sinal não-verbal da presença do Reino, como símbolo comunica uma verdade sem ter que falar qual é a mesma.

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    3. Caro Ev. R.S., eu sou espanhol, e estive vivendo na Inglaterra por mais de 4 anos. Posso afirmar que, na Europa, muitas igrejas usam colarinho clerical. Inclusive igrejas pentecostais, além das históricas (presbiterianos, reformados, anglicanos, metodistas, congregacionalistas, luteranos, etc.)

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  2. Seu ponto é importante, Pr. Robinson. Realmente, existe alguns casos que conheço de pessoas que usam o colarinho clerical, e não são exemplos de vida, nem pastoral, nem doutrinários. Ainda que, também, é verdade que eles devem atual de certa maneira quando usam o mesmo. Portanto, é certo o que você comenta até certo ponto.

    A parte do artigo que você menciona, se refere ao fato de que quando usamos o colarinho clerical, existe inmediatamente a necessidade de atual de acordo ao ofício que representamos. Isto não se faz necessário no anonimato da gravata e o terno.

    Espero que isto ajudei a esclarecer o ponto em questão.

    Muito obrigado pelo seu comentário, e voltei sempre.

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  3. Eu sou presbítero de uma igreja é ja sentir muita vontande de usar a camisa clerical,mais eu ainda não sei como meus irmãos irão reagir por isso ainda estou protelado.

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  4. EU SOU SEMINARISTA BATISTA. SEMPRE FUI ATRAÍDO PELO COLARINHO, SOBRETUDO COMO MARCA E SINAL DE QUE EM QUALQUER LUGAR QUE FOR SEREI RECONHECIDO COMO UM SACERDOTE E QUE PORTANTO EM UM MOMENTO DE DIFICULDADE PESSOAS PODERÃO RECORRER A MIM OU A QUEM QUER QUE SEJA AO USAR O ADEREÇO. SERÁ QUE A CONVENÇÃO BATISTA TRADICIONAL AQUI NO BRASIL PROIBIRIA O USO PARA MIM? SENDO SEMINARISTA EU PODERIA USAR DESDE JÁ O COLARINHO CLERICAL? A PAZ DO SENHOR.

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    1. O uso destina-se a ministros ordenados.
      Se esse for o seu caso, ok.

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    2. Não sei responder as suas perguntas, acredito que deveria perguntar diretamente na sua convenção batista. Nas igrejas anglicanas, seminarista ou postulante as ordens sagradas não pode usar o colarinho clerical. Somente aqueles ordenado as ordens sagradas.

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  5. Depois que eu comecei a usar, confesso que me sinto muito bem, mas como disse o bispo, nem todos vêm com bons olhos, uma pena que o valor é muito mais elevado que uma camisa comum, Deus abençoe.

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    1. É uma experiência bem interessante, sobretudo porque chega a mudar nossa percepção pastoral.

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  6. Muito bem esclarecido Bispo Josep Rossello! Interessante a questão dos símbolos nas igrejas! No entanto, vemos na atualidade uma banalização pois quase tudo é utilizado para símbolo buscando uma atenção de determinado público, chegando alguns até tornando-se misticos. Nas igrejas evangélicas no Brasil principalmente no meio pentecostal e neo pentecostal, nestas igrejas ( não em todas) tenho percebido uma espécie de materialização de figuras de linguagens bíblicas transformando-as em símbolos para interferir no sentimento de fé do ouvinte. Claro que não é o caso do colarinho clerical, mas como o Bispo mencionou o assunto " símbolos cristãos" me lembrei desta falha atual nas igrejas cristãs no Brasil. Algumas igrejas utilizam como uma regra de veste para obreiro o terno e gravata, acho legal por vestir bem, mas ainda não identifica uma pessoa com oficio religioso como este que o Bispo mencionou, outras já não adotam nenhuma alegando motivo de tudo não passar de religiosidade, vai entender o homem e seus extremos. Qualquer um pode usar um terno e gravata, como camiseta polo e outras vestes, agora para por um colarinho clerical ou uma indumentária sem ser consagrado a determinado ministério tem que ter muita cara de pau, geralmente a roupa vai lhe pesar e o colarinho vai lhe sufocar por causa da responsabilidade que se segue após a identificação. Gostei do texto, símbolos cristãos são sempre bem vindos desde que não substituam o Cristo! Obrigado pelo texto simples mas esclarecedor.

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    1. Israel realmente você apresentou vários pontos bem interessante diante de nos. Permita que somente afirmar que os símbolos cristãos somente podem ser cristãos se apontam a Cristo e glorificam a Deus.

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  7. Excelente explicação.
    O resgate do simbolismo é muito importante, uma vez que, os judeus deixaram de forma tão clara e sem essa pretensão as suas demasiadas simbologias e nelas tiveram como memoriais para seus devocionais.
    Como cristãos somos cheios de memoriais e deles que muitas vezes demonstramos nossa fé.

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  8. Jesus era confundido com seus discípulos tendo que ser identificado com um beijo para ser preso. Para mim paramentos como vestes especiais ou gola clerical por mais bonitas que sejam são totalmente desnecessários. Isto afasta as pessoas do líder e faz uma separação entre clero e leigos ( ignorantes ). Pensem nisso!!

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