A Reforma Desconexa do Princípio Regulador do Culto


Pensamentos Desconexos da Reforma Protestante


Sobre a questão da Reforma, acredito que temos que ser capazes de diferenciar entre as primeiras duas gerações dos Reformadores e as posteriores... eu acredito que os primeiros reformadores realmente tentavam reformar a Igreja Católica às suas origens na igreja primitiva, e eles se consideravam os verdadeiros católicos indo contra Roma e o Papado.

Um fato pouco conhecido, e ainda mais ignorado, é que João Calvino escreveu para a Inglaterra em duas ocasiões, pedindo bispos protestantes. Infelizmente, a morte do Rei Eduardo VI e, depois, a morte de Calvino impediram tal governo se desenvolver na Europa com maior força. Contudo, existem várias igrejas que tem origem na época da Reforma Protestante com Bispos, por exemplo a Igreja Reformada Húngara.

Evidentemente, o fervor dos movimentos de mudança leva muitas pessoas irem além do necessário e, muitas vezes, acabam causando verdadeiros problemas com o tempo. Na Holanda, surge no século 17 um movimento para continuar as reformas da igreja, Nadere Reformatie, o que promoveu a ideia de constante Reforma, não baseada na igreja primitiva, mas nos princípios próprios da Reforma Calvinista. Esta mudança faz que os princípios usados pelos primeiros reformados (voltar a igreja primitiva) seja mudada pelo desejo de interpretar e ampliar os ensinos dos primeiros Reformadores.

Isto se vê claramente com o PRC (Principio Regulador de Culto) que rompe com toda a prática e liturgia cristã que tem as suas origens no Culto da igreja apostólica e patrística, na Sinagoga e na Ceia da Páscoa. Portanto, o PRC inicia um processo que nos leva aos cultos contemporâneos das comunidades evangélicas. Se desejam, ficarei feliz de explicar com mais detalhe este fato.

Por outro lado, isto se observa claramente com os debates dos nossos irmãos presbiterianos que debatem intensamente sobre como se deve interpretar a CFW (Confissão de Fé de Westminster) e o que queriam dizer os autores desta confissão. De fato, usar a CFW ou o nome de Calvino é um dos jeitos mais fácil de vencer um argumento, em vez de usar as Escrituras. O Magistério da Igreja de Roma, tão criticado pelos Reformadores, tem dado a luz um novo Magistério das Confissões.

No Anglicanismo, nunca será um argumento vencido pelos 39 Artigos, mas será através das Escrituras, sendo os 39 Artigos um apoio para compreender a interpretação das mesmas pelos Reformadores Ingleses. Deste modo, o princípio de Sola Scriptura no contexto anglicano é mantido intacto. A Escritura é a suprema autoridade, sendo a tradição e razão auxílios para compreender e aplicar as Escrituras na vida da igreja.

Voltando a questão do Episcopado Histórico, este termo tem sido usado mais comumente entre os Reformadores Ingleses e os Anglicanos através dos séculos que a terminologia atual de "sucessão apostólica". É interessante o crescente número de igrejas luteranas que tem Episcopado Histórico na África e Ásia, como outras igrejas protestantes e evangélicas. Infelizmente, não temos uma igreja luterana com Episcopado.

SOBRE O PRINCÍPIO REGULADOR DO CULTO


O PRC (Principio Regulador do Culto) foram diretrizes teológicas criadas durante os século17 para substituir as anteriores liturgias usadas pela Igreja de Cristo que se remonta a igreja primitiva (primeiros 5 séculos da Cristandade).

Os reformadores alemães, ingleses e holandeses tentaram simplesmente modificar a liturgia cristã dos erros desenvolvidos na Idade Média pela Igreja de Roma (Católica Romana). Porém, o PRC é uma ruptura completa com a liturgia cristã antiga em nome de uma ideia romântica, contudo irreal.

Podemos afirmar que observamos alguns elementos do PRC com alguns reformadores, como Calvino, porém "The forms of prayer" de Calvino mantém a ordem de culto encontrada nas liturgias primitivas.

John Knox, reformador escocês, criticou a liturgia de Cranmer (LOC), acabou escrevendo uma liturgia a qual claramente é semelhante a ordem de culto da Santa Comunhão do LOC, somente com pequenas mudanças. Na Escócia, se usou o LOC inglês com normalidade até a decisão do Arcebispo Laud de introduzir forçadamente um novo LOC sem consultar a Igreja Escocesa, acabando tal decisão em uma guerra.

Muitos dos puritanos foram a favor de usar e usaram o LOC, sem maiores problemas. Contudo os puritanos presbiterianos desejavam maiores reformas, sobretudo a partir do rei Tiago e com a chegada das ideias da escola " Nadere Reformatie" da Holanda. Curiosamente, os reformadores holandeses têm escrito amplamente contra o PRC (Principio Regulador do Culto).

A Assembleia de Westminster acabaria adotando o Diretório de Culto de Westminster, e proibindo o uso do LOC. Aqueles que tanto criticaram o fato de que somente era permitido o LOC para o culto e chegando a causar conflitos militares e mortes, agora proibiam o LOC e impõem por lei o usou do Diretório de Culto de Westminster.

Curiosamente, com a Restauração da Monarquia, depois da morte do ditador puritano Oliver Cronwell, Richar Baxter (um dos maiores líderes puritanos da época) apresenta a Liturgia de Savoy para ser adotado pela Igreja da Inglaterra, infelizmente a Conferencia de Savoy acabou não aceitando muitas das propostas nele apresentado. Porém, hoje em dia, a liturgia de Richard Baxter seria usada com total normalidade em qualquer paróquia anglicana.

De fato, existe um LOC que seria aprovado pela Igreja Presbiteriana nos USA, não confundir com PCUSA, e que o mesmo tinha sido aceito pelos teólogos de Westminster.

Isto nos ajuda a ter uma compreensão básica histórica do desenvolvimento do PRC (Principio Regulador do Culto).

Agora bem, o que o PRC diz? Em princípio, aquilo que diz, é uma ideia que todos nós deveríamos gostar e aceitar... porém que não é possível levar a prática, causando assim conflitos desnecessários.

PRC diz que o culto cristão tem que fazer somente aquilo que está regulado, ou claramente ensinado, ou tem diretrizes claramente especificas nas Escrituras e ordenado por Deus para ser feito no culto cristão. (Derek W.H. Thomas, ministro sênior da First Presbyterian Church in Columbia, S.C.)

O problema surge que o NT não contém muitas orientações sobre o culto cristão, de fato a maioria das orientações e elementos litúrgicos no NT, se encontram mais no livro de Apocalipse que em qualquer outro livro do NT.

Curiosamente, um dos textos bíblicos mais usados para defender o PRC, é um texto do AT o qual trata do culto no AT, e não do culto do NT. Deste modo, cometem um erro de exegeses e interpretação gravíssimo, ciando um forte argumento baseado em um erro de interpretação básico: interpretar o texto no seu contexto e não ler nele aquilo que desejamos ler por posições teológicas previamente definidas.

A Confissão de Fé de Westminster, no cap. 21 art. 1, nos dá uma clara definição do que é o Princípio Regulador do culto. Ela diz: “...o modo aceitável de adorar o verdadeiro Deus é instituído por ele mesmo e tão limitado pela sua vontade revelada, que não deve ser adorado segundo as imaginações e invenções dos homens ou sugestões de Satanás nem sob qualquer representação visível ou de qualquer outro modo não prescrito nas Santas Escrituras”.

Eu posso dizer um AMEM a tal declaração da CFW, sem usar o Diretório de Culto de Westminster, porém usando o Livro de Oração Comum.

Rev. Olivar no site Bereianos escreve, "O princípio regulador do culto é claramente expresso nas Escrituras, mostrando que tudo o que não é ordenado pela Escritura no culto a Deus é proibido. Os textos-chave são: “Agora, pois, ó Israel, ouve os estatutos e os juízos que eu vos ensino, para os cumprirdes; para que vivais, e entreis, e possuais a terra que o Senhor Deus de vossos pais vos dá. Não acrescentareis à palavra que vos mando, nem diminuireis dela, para que guardeis os mandamentos do Senhor vosso Deus, que eu vos mando” (Dt 4.1,2). “Guarda-te, que não te enlaces seguindo-as, depois que forem destruídas diante de ti; e que não perguntes acerca dos seus deuses, dizendo: Assim como serviram estas nações os seus deuses, do mesmo modo também farei eu. Assim não farás ao Senhor teu Deus; porque tudo o que é abominável ao Senhor, e que ele odeia, fizeram eles a seus deuses; pois até seus filhos e suas filhas queimaram no fogo aos seus deuses. Tudo o que eu te ordeno, observarás para fazer; nada lhe acrescentarás nem diminuirás” (Dt 12.30-32)."

Portanto, um analises desses textos nos seus contextos bíblicos nos ajuda a perceber os erros claros de interpretação realizado pelos defensores do PRC.

Aqueles que usam o PRC, devem de explicar porque as igrejas deles têm a estrutura que tem, porque o púlpito está no centro, porque o culto é nesta ou àquela hora, porque não fazem palmas durante o culto, entre outras mil coisas que eles fazem e a Bíblia está em silencio... ou a Bíblia fala e eles não fazem.

A simplicidade dos lugares de culto e o foco na pregação levou a uma desconsideração alarmante dos sacramentos, sobretudo da Santa Comunhão, e inclusive pregações poucos relevantes a vida dos cristãos, porém sendo verdadeiras palestras de faculdade teológica. Desta forma, as igrejas que seguem o PRC são fortes em informar os seus membros, porém tem grande dificuldades em formar cristãos. James K.A. Smith fala de forma excelente sobre esta questão no seu livro, "Desiring the Kingdom"

Com os avivamentos do século 18 e 19, o culto começa a mudar de ser a congregação dos santos diante da presença do Senhor para ser o evento central para evangelizar e pregar a Palavra de Deus. Contudo, Atos é claro que a pregação da Palavra acontecia fora da liturgia e o ensino durante a liturgia. A pregação não requer um púlpito e uma plateia... isto tem feito surgir nos nossos dias um crescente nome de ministros que querem ser palestrantes da Palavra, porém não pastores do rebanho do Senhor.

Se somente devemos fazer aquilo que aparece nas Escrituras, então observamos que as comunidades evangélicas fazem exatamente isso... cantam, apresentam as ofertas, pregam e oram uns pelos outros ao final do culto. Inclusive fazem palmas e dançam, como observamos nos Salmos. Portanto, não será que estas comunidades evangélicas são mais fiéis ao PRC que aquelas igrejas que defendem o PRC?

Para finalizar, a maiorias dos presbiterianos, luteranas, reformadas holandesas, anglicanas, metodistas, etc., usam liturgias que tem sua origem na igreja primitiva. A maioria dos presbiterianos na América do Norte usam a liturgia conhecida, como Book of Common Worship.

Esta seria a explicação resumida pelo qual sou contra ao PRC, ainda que concordo com as Escrituras que não devemos fazer nada que seja contrário as mesmas e fazer todo aquilo que claramente é ensinado nas Escrituras.

Os 39 Artigos dizem o seguinte, ARTIGO XX – DA AUTORIDADE DA IGREJA

A IGREJA tem poder para decretar ritos ou cerimónias, e autoridade nas controvérsias da fé. Contudo, não é lícito à Igreja ordenar coisa alguma contrária à Palavra de Deus escrita, nem expor um lugar da Escritura de modo que contradiga outro. E, posto que a Igreja seja testemunha e guarda dos Escrituras Sagradas, todavia, assim como não lhe é lícito decretar coisa alguma contra eles, também não deve apresentar o que neles se não encontra, para que seja acreditado como necessário para a salvação.

Isto se vê claramente quando o povo de Israel, sem mandato direito de Deus, decidem estabelecer o sistema e estruturas do judaísmo a redor das Sinagogas... e desenvolvem um culto o qual não tem claro ordenanças do Senhor para fazer o mesmo.



Um comentário:

  1. Rev. Josep, poderia fornecer referências dos teólogos reformados holandeses que escrevem contra o PRC?

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