O Sacerdócio Universal dos Crentes



"Vós, porém, sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamardes as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz; vós, sim, que, antes, não éreis povo, mas, agora, sois povo de Deus, que não tínheis misericórdia, mas, agora, alcançaste misericórdia" (I Pedro 2.9-10).

Pregar o sacerdócio universal dos crentes foi um dos pilares fundamentais resgatado e defendidos pelos reformadores do século XVI, a fim de contrapor o clericalismo desenvolvido na Idade Média, de que apenas o povo teria acesso a Deus através do sacerdote. Isto nos ensinam, que todos crentes tem livre acesso a Deus, através do sumo sacerdote Jesus Cristo. Nos mostra o grande privilégio que temos todos os crentes como filhos de Deus: cada cristão é um sacerdote; cada cristão tem livre e direto acesso ao Trono da Graça, tendo como único mediador o Senhor Jesus Cristo.

O QUE SIGNIFICA?

Somos sacerdotes de nós mesmos, no sentido de podermos prestar culto diretamente a Deus, através de Jesus Cristo, sem intermediário algum. É o que o apóstolo diz em 1Pedro 2:4,5: "Chegando-vos para ele, a pedra que vive, rejeitada, sim, pelos homens, mas para com Deus eleita e preciosa, também vós mesmos, como pedras que vivem, sois edificados casa espiritual para serdes sacerdócio santo, a fim de oferecerdes sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por intermédio de Jesus Cristo." Os sacrifícios eram prestados pelos sacerdotes e eram materiais; precisavam ser agradáveis a Deus para que fosse aceito por Ele; o mediador era o próprio animal sacrificado que figurava o Messias. Hoje o culto é espiritual, mas precisa ser agradável a Deus e é realizado pela mediação do Cordeiro de Deus, Jesus Cristo. Quando cultuamos a Deus através de Jesus Cristo, exercemos o sacerdócio que nos foi delegado.

O segundo aspecto do sacerdócio do crente está no sentido da intermediação entre pessoas e Deus. Não como era a função do sacerdote de Israel, que recebia do povo o animal a ser sacrificado e o apresentava a Deus, como um mediador aparentemente direto, mas em uma intermediação indireta, como veículos de uma mensagem que leva ao perfeito e único Mediador, Jesus Cristo. Observe-se as palavras do apóstolo em 1 Pedro 2:9: "Vós, porém, sois nação eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamardes as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz."

Terceiro, todos os cristãos são “leigos”, palavra que vem do termo grego laós, “o povo de Deus”. Infelizmente, a palavra "leigos" tem tomado outro significado popular entre nos o qual significa aquele que tem pouco conhecimento sobre uma questão. Alguns cristãos são especificamente chamados, treinados e comissionados para o ministério especial de pregação da Palavra e ministração dos sacramentos. Os leigos, no sentido daqueles que não são “ministros da Palavra e Sacramento”, também têm importantes esferas de atuação à luz do Novo Testamento. Os líderes da Igreja devem falar sobre o ministério do povo de Deus, bem como instruir e incentivar os crentes a desempenharem seu ministério, como sacerdotes.

Uma vez dito isto, este princípio jamais deve ser entendido de maneira individualista, como acontece hoje. A ênfase dos reformadores está unido inseparavelmente a Igreja de Cristo e Sua vida em comum. Somos sacerdotes uns dos outros, devendo orar, interceder e ministrar uns aos outros. À luz do Novo Testamento, cada cristão deve exercer a função de poimene, que em grego quer dizer “cuidador”, “ajudador”, “pastor”, “discipulador”, entendendo seu papel e responsabilidade de discipular/cuidar de alguém. Ou seja, todo cristão é um ministro (diákonos) de Deus, chamado para servir ao outro em amor, porque se somos discípulos de Cristo estamos chamados a fazer discípulos e cuidar daqueles que Deus nos tem permitido cuidar e discipular dentro da Igreja.

O crente faz parte do povo de Deus e exerce um sacerdócio real com a finalidade de proclamar, pregar, anunciar, as virtudes do nosso Salvador, Jesus Cristo. Ou seja, exercemos um sacerdócio mediador no sentido de veicularmos a mensagem que pode levar o homem a Cristo que, por sua vez, é o único que pode levar o homem a Deus.

Uma igreja que caminha baseada nestes princípios será uma igreja saudável, abrangendo a maioria das pessoas que se aproximam a igreja cristã. Cada cristão precisa assumir sua responsabilidade, sair da sua zona de conforto, olhar menos para si mesmo e servir de suporte para aqueles que precisam de socorro, ajuda e esperança.

Seremos uma igreja mais forte se todos exercermos o sacerdócio universal, independentemente de títulos. A igreja não é feita de cargos ou posições, mas de vidas que precisam ser amadas. Uma das maiores belezas da igreja de Cristo é que, quando um está fraco, pode contar com quem está mais forte. E assim vamos nos nutrindo, crescendo e caminhado juntos.

Estes, e somente estes, são os aspectos do nosso sacerdócio como crentes em Jesus Cristo.

Deus seja glorificado e louvado através das nossas vidas.



Um comentário:

  1. Graça e paz, bispo!

    Li em alguns documentos anglicanos dos séc. XVI e XVII o termo "sacerdote" ser usado em referência específica ao ministro ordenado. Teríamos então, como defender a ICAR moderna, dois tipos de sacerdócio, um geral e outro particular?

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