Biblicamente confessamos além da confissões


Hoje, desejo começar uma série de pensamentos sobre os Anglicanos Reformados. Entendo que se fala pouco do Anglicanismo, e o pouco que se fala, se fala sem ter consciência. Contudo, são poucos o que percebem a verdade fundamental que o Anglicanismo é uma “religião protestante reformada.”

Muitos desejam negar este fato, mas se existe uma evidência desta realidade, se encontra nas perguntas que o Arcebispo de Canterbury faz a Rainha, ou rei, no dia da sua Coroação, “Você vai manter a lei de Deus e a verdadeira profissão do Evangelho com todo o seu poder? Você vai manter a Religião Protestante Reformada estabelecida por lei no Reino Unido com todo o seu poder? Você vai manter e preservar inviolável a resolução da Igreja da Inglaterra, e à doutrina, culto, disciplina, e governo da mesma, como por lei estabelecida na Inglaterra?”

Talvez, chegue o dia que estas perguntas mudem com futuros monarcas, mas até agora tem sido assim pela graça de Deus.

Entendo que ser anglicano reformado, resulta um paradoxo histórico, mas vivemos em tempos de paradoxos. Hoje em dia, encontramos muitos anglicanos ortodoxos ao redor do mundo, mas dificilmente encontramos dioceses e igrejas que sejam claramente reformados na sua teologia. No contexto brasileiro, somos uma exceção à norma e, possivelmente, um milagre na nossa existência.

Por este motivo, desejo explorar o que faz dos Anglicanos Reformados ser o que somos. Sem dúvida, o primeiro elemento que determina a identidade deve ser nosso compromisso teológico em vez da nossa fidelidade, ou obediência, institucional.

Evidentemente, não estou dizendo que a instituição seja irrelevante. À diferença de outros irmãos, acredito que a instituição forma parte do plano de Deus para a redenção do mundo.

A herança Anglicana começa nas suas posições teológicas, onde sendo claramente bíblica, entendemos que nossa interpretação das Escrituras deve seguir aquela que tem sempre sido a interpretação e ensino da mesma. Portanto, não buscamos novos significados ocultos e revelações divinas. O desejo é viver a fé Cristã dos primeiros séculos de uma forma relevante para o século 21.

A herança Anglicana nos ensina os Credos universais, como aqueles que sintetizam com grande clareza as verdades essenciais do Cristianismo, nos unindo assim à Igreja de Cristo. Ao mesmo tempo, subscrevemos os 39 Artigos da Religião que nos norteiam teologicamente.

Não em vão, os Ministros da Igreja Anglicana Reformada afirmam os ensinos dos mesmos, como uma declaração fidedigna das doutrinas bíblicas. Evidentemente, não dizemos que seja a única declaração fidedigna, mas ela é.

Uma das grandes riquezas dos Artigos é o fato de que à diferença de outras confissões de fé, estes não tentam responder todas as questões teológicas, mas desejam esclarecer as questões essenciais da fé cristã, mostram o caminho da salvação e santificação, a vida em comum da Igreja, e a relação do Estado e a Igreja.

Cranmer e os outros autores dos Artigos não tinham como objetivo produzir uma confissão diferente que separasse a Igreja de Inglaterra das outras igrejas protestantes. O desejo era esclarecer aquilo que era verdade do que não era, em um tempo de grande controvérsia, mostrando os erros dos católicos romanos e dos anabatistas e outras seitas radicais protestantes, e afirmar as doutrinas cristãs e reformadas, juntamente com as igrejas reformadas da Europa.

A Igreja da Inglaterra entendeu a necessidade de ter um documento que fosse comum para todos os Ministros da Igreja e compartilhasse uma fé comum. Assim, a doutrina Anglicana foi marcada pelo 39 Artigos e os dois livros de Homilias que são mencionados nos mesmos, juntamente com o Livro de Oração Comum e Ordinal (ordenações) são o alicerce do autêntico Anglicanismo.

Diversos movimentos que tem surgido no Anglicanismo tem tentado dizer que esta confissão e fé foi um fruto do seu tempo. Afirmam que ela não tem nenhuma relevância hoje. Contudo, se analisamos os ensinos e doutrinas contidos neles, observamos que são princípios universais e bíblicos. Por exemplo, muitos mostram a questão de que os cultos devem ser em línguas vernáculas para mostrar que esta questão já foi superada pela Igreja de Roma. E, em verdade, sendo certo que Roma superou, talvez observamos muitas igrejas hoje que as línguas espirituais são usadas de forma abusiva durante o culto, inclusive tem pastor que chega a pregar em línguas. Portanto, se Roma superou este fato, também é certo que seguimos precisando lembrar que o culto deve ser feito na língua do povo de Deus.

Os 39 Artigos são definitivamente uma confissão Reformada, em oposição às confissões católica romana, anabatistas ou luteranas. Ainda que esta última teve um papel importante na redação dos 39 Artigos. Contudo, se estudamos as Homilias, observamos como Cranmer estava próximo com a teologia de Calvin e Bullinger, e foi fortemente influenciado por Martin Bucer e John Knox.

Um fato interessante foi que Cranmer tentou repetidamente encontrar uma confissão reformada que pudesse ser subscrita por todas as igrejas reformadas na Europa e Grã Bretanha. Infelizmente, isto nunca chegou acontecer.

Agora bem, devemos perceber que os 39 Artigos, como qualquer outro documento da Igreja, tem autoridade enquanto, e somente na medida que, sejam fiéis às Escrituras. Como lemos no Artigo 6, “de modo que tudo o que nela não se lê, nem por ela se pode provar, não deve ser exigido de pessoa alguma seja crido como artigo de fé ou julgado como requerido ou necessário para a salvação.”

Em outras palavras, os anglicanos não acreditamos na Trindade, a justificação, a Igreja, entre outras coisas, baseados no fato de que eles estejam presentes nos 39 Artigos, em vez disso acreditamos nestas coisas porque são claramente ensinadas nas Escrituras.

Portanto, os Anglicanos pensamos que nossa confissão está limitada por um princípio maior que é a autoridade final das Escrituras, como Palavra de Deus. Deste modo, não é uma adesão cega a um sistema teológico ou uma confissão de fé. Lemos, e admiramos, Calvino, Lutero, Cranmer, Ryle e Spurgeon, mas não somos seguidores escravizados deles, mas de Cristo.

Por esta razão, o Anglicanismo não tem uma grande figura teológica, ou um sistema teológico próprio que diferencia das outras igrejas ou sistemas teológicos. Na verdade, a Igreja Anglicana tem um jeito especial de louvar a Deus que é bíblico, Cristocêntrico e fortemente comunitário. Este surge exatamente dos princípios bíblicos sobre o culto.

Alguns falam que os Anglicanos falamos muito de culto e liturgia, possivelmente falamos muito mais que outros cristãos. Contudo, isto é devido a que desejamos que as Escrituras sejam nossa norma de vida, culto e prática.

Ao mesmo tempo, não temos medo de afirmar que as decisões tomadas pelas igrejas em concílios podem ser erradas. Já aconteceu, e pode acontecer de novo. Por isso, ainda que damos graças a Deus pelo sistema episcopal de governo sinodal, somos conscientes que só as Escrituras são infalíveis e inerentes.

Nenhum consenso, ou decisão, tem autoridade, nem poder, para decidir coisa alguma que seja contrária às Escrituras, ainda que tenha a maioria absoluta dos votos do Sínodo ou Concilio. Por este motivo, os Anglicanos Reformados não temos medo de ser considerados como estranhos pelos outros anglicanos.

Também, se pode dizer a mesma coisa de qualquer prática ou costume que tenha sido parte da nossa herança, se esta é contrária às Escrituras. Então, devemos seguir os ensinos bíblicos sempre e em todas as circunstâncias. Tudo deve ser testado nas Escrituras. Agora, permitam uma nota de advertência aqui, nem sempre o que pensamos que as Escrituras dizem, significa que realmente as Escrituras estão dizendo. Por isso, os ensinos das Escrituras devem ser testados com outras Escrituras, com o que a igreja primitiva ensinava e acreditava. Se ensinamos um texto bíblico que negue outra porção das Escrituras, podemos ter certeza de que estamos cometendo um erro de interpretação. Ao mesmo tempo, sejamos precavidos de fazer doutrinas baseadas em um só texto bíblico.

Finalmente, existem questões onde as Escrituras mantêm silêncio. Nestas questões, acreditamos que a igreja particular tem liberdade. Inclusive, a Igreja tem autoridade de definir em conformidade com os princípios bíblicos e históricos da Igreja de Cristo.

Neste sentido, os Anglicanos discordamos com os presbiterianos, os quais seguindo o princípio regulador, afirmam que somente o que se encontra nas Escrituras é permissível. Os Anglicanos entendemos que Deus tem dado maior liberdade que isso por meio da razão, ou sabedoria divina.

Por este motivo, os Anglicanos afirmamos um compromisso radical com as Escrituras, e não podemos pedir desculpas por este padrão bíblico do Anglicanismo. Afinal, é a verdadeira confissão onde vivemos ou morremos.

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2 comentários:

  1. Muito bom mesmo, Bispo.

    Essa questão do "silencio da Escritura", é que me fez recuar quanto ao presbiterianismo. Vi que eu não poderia subscrever completamente a CFW - salmodia exclusiva, por exemplo.

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