A doutrina da graça no Livro de Oração Comum


A Sociedade do Livro de Oração, no seu jornal da edição da Trindade, encontramos um artigo interessante sobre “O Papel formativo do Livro de Oração Comum,” onde se faz um analises sobre o papel do LOC (Livro de Oração Comum) na formação litúrgica.


A questão que gostaria refletir hoje, é a questão pastoral do próprio LOC. O autor do artigo mencionado anteriormente sugere que o aspeto chave no LOC deveria fazer repensar certas questões que temos esquecido.
O que as pessoas entendem do Livro de Oração sobre o significado dos “eleitos,” por exemplo, quando escutamos no Batismo no Livro de Oração que Deus suplicou que a criança possa permanecer “na companhia dos Seus fieis e as crianças eleitas.”
Dairmaid MacCulloch, autor de umas das obras mais recentes sobre a vida do arcebispo Cranmer, sugere que os escritos de Cranmer expressam um entendimento da graça de Deus que apontam claramente a doutrina da predestinação.

Isto se vê mais claramente quando analisamos a teologia sacramental de Cranmer.
Tanto no culto da Comunhão como no culto de Batismo, Cranmer usa o linguagem mais confiante e clero sobre a graça recebida pelo recipiente do sacramento. Ele sabia que estava exercendo a ressalva não falada que só é recebida pelos eleitos...
Se desejamos entender o LOC, então devemos entender a doutrina da predestinação. Do contrario, se faz impossível compreender todo o significado do mesmo.

Isto tem sido ofuscado pelo movimento tractariano, conhecido também hoje em dia como os anglo-católicos. Também, existem vozes fortes que tem tentado negar este fato evidente entre os liberais. Não em vão, o Livro de Oração Comum elaborado e aprovado pela Convenção Geral da Igreja Episcopal em 1979, modifica substancialmente a doutrina da graça encontrada nos livros de oração comum anteriores.

Este fato se faz mais evidentemente quando lemos o Artigo XVII referente a doutrina da predestinação:
A predestinação para a vida é o eterno propósito de Deus, pelo qual (antes de lançados os fundamentos do mundo) tem constantemente decretado por seu conselho, a nós oculto, livrar da maldição e condenação os que elegeu em Cristo dentre o gênero humano, e conduzi-los por Cristo à salvação eterna, como vasos feitos para a honra. Por isso os que se acham dotados de um tão excelente benefício de Deus, são chamados segundo o propósito de Deus, por seu Espírito operando em tempo devido; pela graça obedecem à vocação; são justificados gratuitamente; são feitos filhos de Deus por adoção; são criados conforme à imagem de Seu Unigênito Filho Jesus Cristo; vivem religiosamente em boas obras, e enfim chegam, pela misericórdia de Deus, à felicidade eterna. 
Assim como a pia consideração da Predestinação, e da nossa Eleição em Cristo, é cheia de um doce, suave, e inexplicável conforto para as pessoas devotas, e os que sentem em si mesmos a operação do Espírito de Cristo, mortificando as obras da carne, e seus membros terrenos, e levantando o seu pensamento às coisas altas e celestiais, não só porque muito estabelece e confirma a sua fé na salvação eterna que hão de gozar por meio de Cristo, mas porque veemente acende o seu amor para com Deus; assim para as pessoas curiosas e carnais, destituídas do Espírito de Cristo, o ter de contínuo diante dos seus olhos a sentença da Predestinação de Deus, é um princípio muitíssimo perigoso, por onde o Diabo as arrasta ao desespero, ou a que vivam numa segurança de vida impuríssima, não menos perigosa que a desesperação. 
Além disso devemos receber as promessas de Deus de modo que nos são geralmente propostas nas Escrituras Sagradas; e seguir em nossas obras a vontade de Deus, que nos é expressamente declarada na Sua Palavra.
Esta doutrina impregna a própria identidade do Anglicanismo, como se reúne para celebrar os seus ritos de Batismo e Santa Comunhão, ora as coletas (orações do dia) e celebra os Funerais. Nesta questão, Genebra e Cantuária caminham juntos sem dificuldades. Eamon Duffy escreve sobre o rito de sepultamento:
O rito de sepultamento de 1552 falava apenas dos eleitos ... Isso foi pra fazer dele o mais universal de todos os rituais populares, o sepultamento, em um rito não de inclusão, mas de separação... a lógica separação deste redesenho drástico e limitado da comunidade cristã.
Agora, também é certo que a predestinação no sentido Anglicano clássico tinha um sentido mais comunal que individual. Nesse sentido, a eclesiologia anglicana afirmou a importância da Igreja, como o povo eleito de Deus. Enquanto, outras tradições veem a igreja como uma questão secundaria.

O fato de que Cranmer impregnará a liturgia Anglicana com uma riqueza teológica sem igual. Nos permite observar com claridade a importância da oração COMUM e a vida em comum, como parte da caminhada como cristãos.

Neste sentido, os Reformadores Ingleses continuaram fieis a teologia e prática da igreja primitiva e, deste modo, afirmaram sem a menor das dúvidas a autoridade e suficiência das Escrituras na vida da igreja.

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