O Sarau(m) Anglicano

falando do culto anglicano

Tem surgido um debate interessante a partir da minha postagem se o Rito de Sarum pode ser considerado, ou não, Anglicano. Minha posição é que não se pode considerar como Anglicano.


As pessoas que tem mostrado uma posição oposta a minha, tem o seguinte argumento: A Igreja Inglesa não nasceu no século XVI, já existia antes deste tempo. Portanto, qualquer rito que foi usado na Inglaterra pode ser considerado como um rito Anglicano. Em sua próprias palavras escreveram, “Ora, se a Igreja da Inglaterra foi reformada, logo, existia antes. Se existia antes, e um de seus imemoriais Ritos era o de Sarum, como não reconhecer que este é, e foi, anglicano? ANGLICANAE ECCLESIA já existia antes da Reforma.” Este é o argumento que usado pelos defensores do Rito de Sarum, como Anglicano.

Agora, vamos considerar os motivos pelos quais eu não considero o Rito de Sarum, como Anglicano. Assim, afirmo que o Anglicanismo é na sua essência uma igreja reformada e protestante.

O Rito de Sarum ou Salisbury (Inglaterra) foi produto do trabalho do Bispo Osmund (1078), que compilou os livros correspondentes ao Missal, Breviário e Ritual, aos quais foram revisados e adotados como as leituras Anglo-saxônicas do Rito Romano. De fato, o breviário de Sarum, como o Missal de Sarum, é essencialmente o Rito Romano e com grandes similitudes ao Rito Ambrosiano. (1)

Devemos entender que a Igreja Inglesa daquele tempo era a Igreja Católica Romana na Inglaterra. O termo “ecclesia anglicana” foi usado na sua primeira instancia para definir a Igreja Católica Romana na Inglaterra em 1246, significando a "Igreja Inglesa" (2) Como se falava da Igreja Espanhola, ou hoje se fala da Igreja Brasileira, em clara referencia a Igreja Católica Romana nestes países.

O fato de que as diversas liturgias foram nomeadas como “ritos,” mostra que a Igreja de Roma considerava os diversos ritos (Moçárabe, Galiano, Ambrosiano, etc.) como ritos católicos romanos. (3)

Se há defensores do rito de Sarum como Anglicano, é devido a que este foi usado na Inglaterra, então também deveríamos considera ele como Presbiteriano, já que também foi usado na Escócia. Mas isto seria uma ideia absurda ao meu entender.

Eu concordo que a Igreja Inglesa existe na Inglaterra desde o século II, mas o Anglicanismo no seu sentido atual foi fruto da Reforma Inglesa que mudou a liturgia, costumes, teologia e prática desta, como aconteceu na Escócia e outras partes de Europa.

De fato, todos os defensores do Rito de Sarum são bem ritualistas. E tem um desejo evidente de ver a Igreja de Inglaterra e o Anglicanismo voltar ao período anterior a Reforma Protestante. Isto é evidente pelo fato que depois de que o Livro de Oração Comum foi adotado no Reinado de Eduardo VI, só voltou a ser oficial o Rito de Sarum sob o Reinado de Maria, que levou de volta a Igreja de Inglaterra embaixo da autoridade Papal. Também, o fato de que o rito foi usado pelos católicos romanos ingleses até que apareceu o rito Tridentino.

No século 19, o movimento ritualista de Oxford (ou Tractariano) intentou mostrar que o rito de Sarum era o rito anglicano por antonomásia. Porém, nunca teve muito sucesso, como mostra o fato de que não foi traduzido ao inglês até 1911. Depois de 1549, nunca mais foi oficial este rito na Inglaterra. Por isso, este movimento mudou sua estratégia para modificar o Livro de Oração Comum e tentar que os 39 Artigos da Religião fossem somente considerado um documento histórico.

Na atualidade, não tem encontrado nenhuma igreja que use este rito no seu dia a dia. Certamente, existe um chamado “Missal Anglicano.” Porém, não podemos confundir este com o Rito de Sarum, porque este foi produzido em 1921 pela Sociedade de São Pedro e São Paulo a partir do Missal Romano e adaptado ao uso anglicano.

Alguns dos bispos católicos romanos tem mostrado um desejo que o Rito de Sarum fosse usado pelo “Anglicanorum coetibus” (4), mas tudo indica que vai ser usado o Livro de Culto Divino. O fato interessante é que existem já uma igreja que usa esta liturgia no Brasil. (5)

O que acho realmente inacreditável é que se fala de “tradição anglicana reformada,” porque o Livro de Culto Divino foi desenvolvido pela Igreja Católica Romana a partir do LOC (1928 e 1979) e o Missale Romanum. (6)

Assim, podemos perceber como o Livro de Culto Divino rompe com a prática, a teologia e costumes do Livro de Oração Comum de 1662. Por certo, o LOC 1662 não foi desenvolvido pelos puritanos, nem os evangélicos, mas foi recopilado e editado pelos Lauditanos, que eram a Igreja Alta do século 17. (7)

As vezes, tenho a sensação de que muitos anglicanos são “católicos romanos disfarçados.” Não em vão, encontre recentemente no fórum de Monfort Associação Cultural o seguinte comentário, leia aqui. Não posso dizer, se realmente este mensagem é da autoria do bispo que assina o comentário, mas se é, talvez, encontramos muitas respostas a certas práticas romanas nesta jurisdição chamada "anglicana" (como o uso do rito romano para exorcismo).

O Anglicanismo é uma religião reformada e protestante. E, certamente, católica, como também se definiam católicos os reformadores continentais (luteranos e calvinistas).

O Livro de Oração Comum, juntamente com o Ordinário e os 39 Artigos da Religião, foi essencial na Reforma Inglesa e no desenvolvimento de uma teologia Anglicana própria. Portanto, é minha opinião que qualquer pessoa que não se conforme ao LOC na sua pratica e teologia, está abandonando o Anglicanismo no seu sentido clássico, autêntico e histórico da palavra.


~~~~~~~~

Referencias:

(1) http://www.newadvent.org/cathen/13479a.htm
(2) "Anglicanism". Catholic Encyclopedia.
(3) http://anglicanpatrimony.blogspot.com/2010/08/sarum-what.html
(4) http://www.theanglocatholic.com/2010/02/united-in-communion-but-not-absorbed/
(5) http://www.anglo-tradicional.org/indexPrincipal.asp?CodID=8
(6) http://en.wikipedia.org/wiki/Book_of_Divine_Worship e http://pbs1928.blogspot.com/2004/05/book-of-divine-worship-r-c-adaptation.html
(7) Edwards, David (1983), Christian England: From the Reformation to the 18th Century, Collins.


5 comentários:

  1. Caro Josep,
    A paz esteja consigo.
    Este seu artigo ficou muito melhor. Está mais positivo quanto à defesa do seu postulado, ainda que possua alguns ranços (podemos assim definir, se me permite), talvez por um costume antigo ao formatar as suas teses, incluindo o título (este sim de mau gosto).
    Pois bem. Basicamente, antes de continuar numa saudável troca de impressões, vejo que há uma confusão fundamental quanto ao que você entende como "anglicano" ou não, pois confunde o 'ser anglicano' (essência) com o 'pertencer ao anglicanismo' (sistema anglicano de essência reformada). Explico: o Anglicanismo é mesmo um sistema reformado por excelência, surgido a partir do século 17, com as obras dos maiores teólogos da Igreja da Inglaterra da época, "uma fé e uma prática de lealdade para com a Igreja da Inglaterra, baseados não mais somente no repúdio à Roma, mas com a convicção de sua posição como membro da Igreja Católica (no sentido exposto no Credo Niceno), de sua continuidade com o passado, de sua responsabilidade para com o presente e o futuro da cristandade" (BETTENSON, H. P., Documentos da Igreja Cristã. 2ª Ed. Rio de Janeiro e São Paulo: JUERP / ASTE, 1983. Pg.321). Esta citação está na wikipédia, mas informo que possuo a obra; se precisar de cópia envio-lhe. A Igreja da Inglaterra, ou Igreja Anglicana, é pré-existente à Reforma. E, mesmo sob o império da Reforma, somente no século 17 começa o tradicional Anglicanismo, como um sistema evangélico elaborado, diverso da fase da Igreja Anglicana "reformada" de Henrique VIII até a Restauração. Também devemos ter em mente que o Rito de Sarum (e os demais que haviam na Inglaterra pré-Reforma) sempre foram da Igreja da Inglaterra e dentro dela compilados, ainda que com base nos ritos Gregorianos (!). A uniformização do que se entende hoje por "Rito Romano" vem após Trento, com o Papa Pio V e sua uniformização litúrgica, com a finalidade exatamente de afirmar a autoridade de Roma sobre as Igrejas que ficaram em comunhão com o Papa após o fracionamento causado pela Reforma na Igreja do Ocidente. Ligar o Rito de Sarum a vontade papal não corresponde à verdade histórica. Na realidade, Sarum, pela sua condição de imemorial Rito inglês, dentre os outros existentes na Inglaterra, foi aceito pelo Papado, e não imposto por este. Sarum e todos os outros imemoriais Ritos litúrgicos ingleses, portanto, ANGLICANOS, devem ser reconhecidos como tal. Porém, no "Anglicanismo", sistema acima descrito, sob a égide do protestantismo, não faz parte.
    Sugiro entrarmos mais a fundo na questão e separar o que é, e sempre foi, da ANGLICANAE ECCLESIA, daquilo que é oriundo do sistema denominado "Anglicanismo", surgido no século 17.
    Com o meu apreço.
    +James
    www.anglo-tradicional.org

    ResponderExcluir
  2. Caro James,

    acho que é certo que nossa diferença se encontra em que significa "Anglicanismo". Agora, o termino Anglicanismo é um neologismo do século 19, que foi construído a partir da palavra "Anglicano", que significa inglês.

    Agora bem, o rito de Sarum surge em Salisbury, porém foi usado na Escócia e Irlanda. Portanto, não se pode dizer que seja só um rito inglês, enquanto que também é irlandês e escocês. Isto leva a perguntar, será que ele também é presbiterano? Ao final, a Igreja Escocesa também sempre existiu, ela não surgiu do nada durante a Reforma.

    Sem duvida, a Igreja Inglesa existia com anterioridade, mas era católica romana desde o Concilio de Whitby.

    É claro que Roma não imponia naquele tempo uma liturgia, mas elas eram expressões do rito latino nas suas versões locais, como prova o fato de que seja tão similar o Rito Ambrosiano e romano. Isto sem falar da teologia, pratica e costumes que eram romanistas.

    Porém, quando falamos de Anglicanismo como um sistema religioso próprio, este surge a partir da Reforma. Já seja o seu governo conciliar sob a liderança de bispos, as doutrinas e ensino, a pratica e costumes, ou a liturgia.

    Hoje em dia, Anglicano (como adjetivo) é usado para descrever as pessoas, instituições e igrejas como a tradição litúrgica e teologia surgida na Reforma da Igreja de Inglaterra que aconteceu começou no século XVI, e alguns inclusive falam do século XV. Como nome, Anglicano é usado pelas igrejas que seguem o formulário anglicano ou são membros da Comunhão Anglicana.

    Ser católico não sentido anglicano, e também dos reformadores continentais, se encontra na frase que escreveu Vicente de Lerins no Cânon de 434 d.C., "manter o que tem sido acreditado em todos os lugares, sempre e por todos. Essa é verdadeira e propriamente "católico"."

    Nesse sentido, os Anglicanos somos mais católicos que os próprios católicos romanos ou os anglo-católicos. E, foi por isso, que a reforma foi tão necessária e, portanto, o rito sarum só é uma memoria de quando a Igreja de Inglaterra foi romana.

    Deus te abençoe,

    Josep

    ResponderExcluir
  3. Caro Josep,
    Esse é um assunto muito interessante. Mesmo a definição de "católico romano" só surge após a Reforma. Antes, o usual era Igreja Latina, ou Igreja do Ocidente, assim como a ortodoxia era conhecida como Igreja do Oriente ou Igreja Grega.

    Mas, deixemos tudo isso por ora. Lí sua mensagem sobre seu filho e sua esposa.
    Deixei um recado para vc no Facebook.
    A unica coisa que posso deixa aqui para vc seria o trecho mais intenso de minha mensagem no Facebook, sobre a Fé intrépida nos momentos mais difíceis: "A fé é a face a face nas trevas [com o Amor, Deus].
    Meus sentimentos.

    ResponderExcluir
  4. Caro Bispo Josep,

    Creio ser este tema de extrema relevância para o Anglicanismo brasileiro. Porém, sinceramente, também acho que podemos perder o nosso tempo conversando com pessoas que não desejam ouvir o sentido comum em tudo isto.

    Para os anglo-católicos, parece que a Reforma não tem nenhum valor. está com nada. É uma questão de ser "católico" no sentido que algumas pessoas entendem. Eles preferem Maria às Escrituras, a Transubstanciação às Escrituras, a Oração pelos mortos às Escrituras, só para citar alguns exemplos.

    Se fossem anglicanos de fato submeter-se-iam às Escrituras, aos 39 artigos e ao Livro de Oração Comum. Como não querem fazê-lo, fizeram uma escolha, a do pior tipo de cego: o ritualismo e romanismo.

    Creio que fomos claros em artigos anteriores neste blog, espaço salutar de discussão. Porém, malhar em ferro frio não faz efeito.

    Espero que a misericórdia de Deus se faça presente antes que sua justiça. "A quem muito foi dado,muito será cobrado".

    Virgilio+

    ResponderExcluir
  5. exelente postagem ...reflete...esclarece ...muito bom mesmo...nos dias de hoje muitos anglicanos ou nao ... ouviram e gostaria de saber mais sobre o rito de sarum...afinal alguns anglicanos o seguem e o defendem ...exelente ...Deus continue te iluminando...

    ResponderExcluir