Os anglicanos são verdadeiros evangélicos?

o que é um evangelico

Muitos são os que pensam que o Anglicanismo não é uma igreja que forme parte da religião evangélica e reformada. De fato, muitos falam com muita convicção que o cristianismo não é uma religião. Com certeza, é sim, mas não qualquer religião, é a verdadeira religião do Deus vivo.


Este fato mostra o que qualquer observador atento pode perceber, que o Cristianismo evangélico tem mudado dramaticamente do que era ao que é hoje nos últimos 60 anos. Também, isto tem acontecido no Anglicanismo nos últimos 50 anos.

Por este motivo, acho importante que entendamos as doutrinas essenciais que fazem da religião evangélica o que ela tem sempre sido e, não, o que muitas pessoas pensam que é ser evangélico.

O primeiro ponto, e o mais óbvio, um evangélico é aquele que acredita que as Sagradas Escrituras são a Palavra de Deus escrita.


Não é só que as Escrituras foram inspiradas, mas acreditamos que cada palavra que foi escrita são as palavras do próprio Deus. Na Bíblia, temos a plena e completa revelação inspirada da verdade de Deus para as pessoas.

A Bíblia sobressai sobre qualquer outro livro que tenha sido escrito pelo ser humano. Existem muitos bons livros, mas nenhum pode ser comparado às Escrituras.

Por este motivo, os evangélicos fazemos dela a regra e referência de qualquer outra coisa. A Bíblia é a luz que nos orienta no caminho, e o sinal que nos guia no mundo. (Salmos 119.105)

As Escrituras são a única autoridade em todas as questões relacionadas a alma e a salvação eterna. Sonhos e revelações supostas, o ensino dos pastores e os pronunciamentos dos sínodos não tem nenhum peso, exceto quando pode ser provado pela autoridade firme e certa das Sagradas Escrituras: “À lei e ao testemunho! Se eles não falarem desta maneira, jamais verão a alva.” (Isaias 8.20)
 “A Escritura Sagrada contém todas as coisas necessárias para a salvação; de modo que tudo o que nela não se lê, nem por ela se pode provar, não deve ser exigido de pessoa alguma seja crido como artigo de fé ou julgado como requerido ou necessário para a salvação.” (Artigo VI).
Isto foi o mesmo que a Igreja dos primeiros séculos acreditava e sempre acreditou:
De nada mais temos aprendido o plano de nossa salvação, senão daqueles através de quem o evangelho nos chegou, o qual eles pregaram inicialmente em público, e, em tempos mais recentes, pela vontade de Deus, nos foi legado por eles nas Escrituras, para que sejam o fundamento e pilar de nossa fé" (Irineu, "Em contra heresia")
"Que este selo permaneça sempre em tua mente, o qual foi agora, por meio do sumário, colocado em teu coração e que, se o Senhor o permitir, daqui em diante, será elaborado de acordo com nossas forças por provas da Escritura. Porque, concernente aos divinos e sagrados Mistérios da Fé, é nosso dever não fazer nem a mais insignificante observação sem submetê-la às Sagradas Escrituras, nem sermos desviados por meras probabilidades e artifícios de argumentos. Não acreditem em mim porque eu vos digo estas coisas, a menos que recebam das Sagradas Escrituras a prova do que vos é apresentado: porque esta salvação, a qual temos pela nossa fé, não nos advém de arrazoados engenhosos, mas da prova das Sagradas Escrituras" (São Cirilo de Jerusalem)
"A generalidade dos homens ainda flutua em suas opiniões acerca disto, as quais são tão errôneas como eles são numerosos. Quanto a nós, se a filosofia gentílica, que trata metodicamente todos estes pontos, fosse realmente adequada para uma demonstração, com certeza seria supérfluo adicionar uma discussão acerca da alma a tais especulações. Mas ainda que tais especulações procedessem, no que se refere ao assunto da alma, avançando tanto quanto satisfizessem ao pensador na direção das consequências já antevistas, nós não estamos autorizados para tomar tal licença - refiro-me a sustentar algo meramente por que nos satisfaz; pelo contrário, nós fazemos com que as Sagradas Escrituras sejam a regra e a medida de cada postulado; nós necessariamente fixamos nossos olhos sobre isto, e aprovamos somente aquilo que se harmoniza com o sentido de tais escritos" [Gregório de Nisã]
Os evangélicos entendemos que precisamos manter um tempo diário para ler, meditar e estudar as Escrituras. Entendemos que é essencial memorizar a Bíblia para que o Espirito Santo nos renove dia a dia. Deste modo, quando não temos certeza buscamos em oração e nas Escrituras a orientação de Deus. Ao mesmo tempo, é através delas que Deus fala conosco e revela seus propósitos.

Portanto, orar, buscar o rosto de Deus, ler Sua palavra, e ser rápido em obedecer, porque é na sua luz que podemos ver luz (Salmos 36.9).

Segundo, um evangélico é uma pessoa que acredita e conhece a realidade do novo nascimento


Jesus falou do novo nascimento a Nicodemos, um dos principais dos judeus, o qual tinha vindo ter com ele de noite. Jesus lhe disse: "Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus. Disse-lhe Nicodemos: Como pode um homem nascer, sendo velho? Pode, porventura, tornar a entrar no ventre de sua mãe, e nascer? Jesus respondeu: Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus. O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é espírito. Não te maravilhes de te ter dito: Necessário vos é nascer de novo. O vento sopra onde quer, e ouves a sua voz; mas não sabes donde vem, nem para onde vai; assim é todo aquele que é nascido do Espírito" (João 3:3-8)

O novo nascimento também é chamado de regeneração, e não é a nossa obra ou alguma coisa que nós fazemos. Dr. R.C. Sproul escreve, “A regeneração é obra soberana de Deus Espírito Santo. A iniciativa cabe a ele, e não a nós.” O novo nascimento não é ir a igreja, ou tornar-se evangélico ou anglicano, ou ser uma melhor pessoa, ou ser batizado.

O novo nascimento é a obra de Deus nas nossas vidas pelo Espirito Santo. É uma transformação tão profunda, como é passar de estar mortos pelos nossos pecados a viver em Cristo. No novo nascimento, nossa velha natureza pecaminosa é morta, e a natureza de Cristo gerada em nossos corações, "pois fostes regenerados não de semente corruptível, mas de incorruptível, mediante a palavra de Deus, a qual vive e é permanente’’ (I Pedro 1:23).

As coisas velhas passam e todas as coisas são feitas novas (2 Coríntios 5.17). Vemos o mundo com novos olhos, e percebemos coisas que nunca antes percebemos. Realmente, abraçamos a Cristo pela fé como Senhor das nossas vidas e, ao mesmo tempo, como salvador da nossa prisão espiritual. Pela primeira vez, a vida cristã faz sentido, e chamar a Deus de Pai, é uma honra imerecida. Por isso, chamamos aos outros cristãos de irmãos e irmãs em Cristo. Nascemos dentro de uma nova família, a família dos filhos de Deus, a IGREJA. Agora, temos novos desejos, aspirações, novos afetos, esperança e desejos.

Terceiro, os evangélicos acreditamos no pecado original, e na total depravação da natureza humana


Com certeza, esta é uma coisa difícil de acreditar e manter sinceramente. Porém, as Escrituras ensinam claramente que todas as pessoas são pecadoras por natureza. Isto não significa que não sejamos capazes de fazer boas obras e coisas positivas. Contudo, ainda o nosso melhor não é suficiente para Deus, porque o pecado que existe em nós contamina e estraga o melhor que existe no ser humano.

Nada que possamos fazer, chega a ser comparável a santidade e a perfeição da lei de Deus. Não tem ninguém que faça o bem, nem um só (Salmos 14.1-3; Salmos 53.1-3; Romanos 3.10-12). Portanto, não podemos esperar nos salvar pelas nossas obras e pelo que somos.

Os evangélicos acreditamos que isto precisa ser ensinado e falado, porque as pessoas não podem ver esta grande verdade por si mesmas. Eles acham que são bons aos seus próprios olhos e na luz do seu próprio entendimento.

Isto é assim, porque eles julgam as suas obras e pensamentos em uma escala comparativa. Isto inclusive acontece na caminhada cristã, quando nos olhamos e comparamos a outros cristãos. Sem duvida, sempre podemos encontrar alguém pior ou, inclusive, alguém melhor, mas não quando o padrão é a palavra de Deus.

Portanto, o padrão absoluto da santidade e a justiça de Deus deve ser ensinado. Precisam ver-se como Deus vê a eles, na luz das Escrituras, e comparada a vida perfeita do Senhor Jesus Cristo.

Só então poderão chegar a entender o grau de seriedade que sua condição real é, e poderão perceber que “a mentalidade da carne é inimiga de Deus porque não se submete à lei de Deus, nem pode fazê-lo” (Romanos 8.7)

Só então os homens e as mulheres poderão entender sua urgente necessidade de ser salvos, não por eles mesmos, mas pelo salvador do mundo.
DEUS Todo-Poderoso, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, Criador de todas as coisas, Juiz de todos os homens; nós reconhecemos e deploramos a multidão de nossos pecados e perversões, os quais nós, de tempos a tempos, temos lamentavelmente cometido, por meio de nossos pensamentos, palavras e ações, contra tua Divina Majestade, provocando com justiça a tua ira e indignação contra nós outros. Nós vigorosamente nos arrependemos, e sinceramente deploramos tais nossas transgressões, cuja mera lembrança nos é pesarosa, e cujo fardo nos é insuportável. Tem misericórdia de nós, tem misericórdia de nós, ó Pai de misericórdia, por amor de teu Filho, Nosso Senhor Jesus Cristo; perdoa tudo quanto se passou, e concede que doravante possamos servir-te e agradar-te em novidade de vida, para a honra e glória de teu nome. Por Jesus Cristo, Nosso Senhor. Amém. (Livro de Oração Comum).
Os 39 Artigos mostram claramente esta doutrina em diversos artigos. E pais da igreja, como São Agustín, foram firmes a ensinar esta importante doutrina cristã.

Quarto, os evangélicos acreditamos profundamente na suficiência completa da obra salvadora de Jesus Cristo


Ele é o perfeito e único Salvador do mundo. A razão é que só Ele nasceu sem pecado; viveu sem pecado, cumpriu a justiça da lei de Deus, e satisfez as reivindicações da justiça de Deus. Como a nomeada cabeça e representativo do Seu povo, sofreu e morreu por eles na cruz. Ele pagou plenamente a dívida de seus pecados, fez perfeita satisfação e expiação por eles, em seu lugar, como seu sumo sacerdote, e assim os libertou.

A obra redentora tem sido plenamente e perfeitamente completada. Não existe nada mais para ser feito. O que Ele tem feito tem pago pelos nossos pecados e, agora, está sentado a mão direita do Pai. (Hebreus 1.3)

Isto é o que o evangélicos acreditam, e se você perguntar a eles, você vai perceber que não existe nenhum outro Salvador, mas Cristo. Não outro sacrifício, mas o que ele ofereceu voluntariamente uma vez e por todos na cruz. Não tem outro sacerdote, exceto o que pertence a Jesus. Nem outro advogado ou mediador, mas Cristo.

Se perguntas o que precisas fazer para ser salvo, a resposta será, “Creia no Senhor Jesus, e serão salvos, você e os de sua casa” (Atos 16.31). Nada mais, nada menos.

O Artigo 18 diz, “Devem ser também tidos por amaldiçoados os que se atrevem a dizer que todo o homem será salvo pela lei ou seita que professa, contanto que seja cuidadoso em modelar sua vida segundo essa lei e o lume da natureza. Porque a Escritura Santa somente nos propõe o nome de Jesus Cristo, como único meio pelo qual os homens se hão de salvar.”

Por último, os evangélicos acreditamos na perseverança final dos santos


Acreditamos na indefectibilidade da graça. Aqueles que foram eleitos, não serão esquecidos, nem separados do amor de Deus. (Romanos 8.38-39)

Sem nenhuma dúvida, experimentarão tempos de dúvidas e incertezas, e estarão tentados a não seguir acreditando. Muitas vezes cairão, e falharão a Deus, e conhecerão suas fraquezas, debilidades, e medos. Porém, nunca cairão completamente; porque, mediante a fé, são protegidos pelo poder de Deus até chegar a salvação prestes a ser revelada nos últimos tempos (1 Pedro 1.5).

O que significa que o poder e graça de Deus estão constantemente fortificando nossa fé, e protegendo.

Eu lhes dou a vida eterna, e elas jamais perecerão; ninguém as poderá arrancar da minha mão. Meu Pai, que as deu para mim, é maior do que todos; ninguém as pode arrancar da mão de meu Pai” (João 10.28-29)

Esta é a verdade sobre a qual nossa fé está fundamentada. Esta é a religião cristã verdadeira. E, mesmo, se não é ensinada e falada muito hoje na Igreja; principalmente, porque estão surgindo muitos “ismos” (ecumenismo, anglo-catolicismo, liberalismo, modernismo) e diversas novas teologias (teologia de libertação, evangelho da prosperidade, os emergentes); é a religião da Bíblia, de Paulo, Pedro e João, São Agustín, Lutero, Calvino, Cranmer, Latimer e Ridley e Tyndale e todos os reformadores. Esta é a fé dos 39 Artigos da Religião e O Livro de Oração Comum. De fato, esta é a verdadeira posição da Igreja da Inglaterra e da igreja Cristã.

A Deus seja sempre dada toda a glória!!!



4 comentários:

  1. Bispo, o senhor com essas palavras não deixa somente "os calvinistas" como sendo evangélicos? Pois os argumentos são grandemente voltados para a TULIP. Não acha?

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  2. Caro Diego, quando uso o termino evang~elico, estou usando no sentido que tem sido entendido na Europa por muitos seculos, e não como se entende hoje no Brasil. Sem duvida, amado, é que ser evang~elico está fortemente ligado as doutrinas reformadas, isso também é calvinismo, porém não é só calvinismo.

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  3. Parabéns por nos brindar com mais este texto, Bispo Rossello. Por ele, percebemos que muitas igrejas ditas evangélicas estão na verdade bem distantes dessas verdades fundamentais. A heresia pelagiana e o liberalismo teológico, dentre outros "ismos" antibíblicos, grassam em muitas denominações, infelizmente.

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  4. Gostei muito do artigo! Nesse tempo, onde chegamos a nos envergonhar do título "evangélico", a exposição acima é bálsamo.

    Paz e bem

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